sábado, 11 de abril de 2009

Eu sei, mas não devia.

Outro dia, em meio a uma imensidão de afazeres, eu estava perdendo o meu precioso tempo clicando nos meus amigos do orkut. Dos milhões de cliques bestas, um deles foi até proveitoso. Proveitoso porque achei no orkut de uma amiga um texto da Marina Colasanti, que me fez pensar. Pense você também:

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti.

5 comentários:

  1. Uau, adorei o texto da Colassanti! É bem real, e é algo que pensamos, mas, não fazemos. Faríamos se tivéssemos tempo, temos tempo. Mas o tempo que temos é tão ocupado com tantas outras coisas, tantos outros pensamentos que acabamos nem prestando atenção nessas pequenas (grandes) coisas. É importante pensar, e mais ainda é por em prática. O problema é que não é fácil, mas ninguém nunca disse que seria. :)



    Naiá, eu sou a Isabela(a namorada do Mateus) e já tinha visitado seu blog uma vez. Não tinha tido coragem pra comentar, mas gostei deste post, não resisti a essa janela e... escrevi.
    beijo! :*

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  2. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
    Mas a gente não tem muita escolha, ou talvez nenhuma escolha. Se eu soubesse algum meio de fugir disso eu o faria, mas ninguém nunca me disse e eu nunca li em lugar nenhum uma maneira de sair dessa camisa-de-força.

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  3. O limite de um ser é, e apenas é, sua imaginação. Porem, vivemos dentro de nossas proprias regras impostas pela nossa comodidade e preguiça de questionar, ou agir de acordo com o que acredita.
    Não existe nação, não existe família, não existe a propriedade, o meu e o seu, são todos valores que acreditamos segamente e, por isso, agimos como se existissem, e assim ate parece que existem...
    Mas somos livres, livres dessas regras que nos trancamos. Outro dia me pediram uma caneta emprestada e eu a dei, mas sem pedir de volta, eu dei a caneta mesmo. A pessoa não queria, queria me devolver, acreditava que aquilo era meu e não podia recebê-la.
    Experimente olhar por fora da caixa, abra a cabeça e tente só um pouquinho. Verás que vivemos de uma maneira sem sentido algum.

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  4. pois é.... quando eu falo que o que vale é a felicidade voce não entende...

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