“Quem lhe deu a verdade
absoluta? Não há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move,
tudo revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo).
Foi essa a frase que li hoje logo no início do meu dia, enquanto tomava café. Estava
escrita na biografia do meu instagram. Ainda à mesa, fui exercer essa atividade
social moderna que foi impregnada em nossas subjetividades: se atualizar sobre
a vida dos outros nas redes sociais. Que cultura péssima, que hábito deteriorante!
Logo no início do dia... mas lá estava eu fazendo isso. Por um momento, entrei
no meu próprio perfil para fazer aquela autoavaliação esporádica para ver se
está tudo certo, se devo mudar alguma coisa, essas besteiras. E então li essa
frase. E vi o link do meu blog. Senti saudades. Refleti um pouco mais sobre a
frase e vim aqui escrever, mesmo que isso tire vários minutos que poderiam ser
dedicados às tarefas acadêmicas que devo cumprir hoje. Que se danem essas
tarefas! Estou cansada, muito cansada.
Preciso mesmo
é resgatar as coisas que estão esquecidas dentro de mim, preciso parar para
pensar nas minhas transformações internas, nas minhas revoluções mais íntimas. Se
eu não fizer isso, vou me perdendo dentro de mim. Preciso parar para entender
que não há verdade absoluta... tudo se transforma, voa e vai. Assim como eu
mesma. Do jeito que Frida Kahlo disse um dia.
Quando vi
o link do meu blog, resolvi clicar, fui descendo a barra de rolagem e
analisando os títulos dos últimos textos. Cliquei em “pausa para falar um
pouquinho da vida acadêmica”, li o texto na íntegra. Eu adoro ler as coisas que
escrevo há um tempo, porque vejo que isso é um grande exercício de refletir
sobre mim, sobre as coisas que eu tenho pensado nas diversas circunstâncias
históricas da minha vida, talvez eu encontre alguma explicação para o que eu me
tornei hoje. E a verdade é que eu sempre encontro mesmo. E eu acho que esse exercício
responde bem ao clássico aforismo que os sábios gregos nos deixaram: “conhece-te
a ti mesmo”. Sim! Conhece-te a ti mesmo! Não há nada mais precioso do que mergulhar
em si mesmo para entender tudo que você é e tudo que você representa diante
desse mundo.
Descobri
que escrever é uma atividade terapêutica. Outro dia, assisti ao filme “beleza
oculta”. O personagem representado por Will Smith escrevia cartas para as suas
principais dores: o amor, o tempo e a morte. E nesse processo, ele ia compreendendo
a dimensão desses três elementos em torno de sua própria vida e, paulatinamente,
ia se curando. E foi uma narrativa tão linda, tão sensível, tão verdadeira! E então
eu refleti muito sobre essa necessidade de simplesmente escrever. Pontuar os
acontecimentos da nossa própria vida de tempos em tempos. Parar para registrar,
para expressar, para sentir a sua própria vida pulsando em você e no papel (ou na tela). Isso é mágico,
é inspirador!
E o que
eu tenho para escrever hoje são coisas corriqueiras sobre o que eu tenho
passado nos últimos tempos, sobre os grandes desafios aos quais a vida me
tornou subserviente. Na verdade, nem sei se são tão grandes assim. Acho que
ainda não chegou o meu limite. Cada um delimita o seu próprio limite. Os meus,
ainda não conheço, porque tenho encarado esses desafios com a minha modesta
bravura, sem ainda ter me sentido despedaçada ou desesperada. Então, de fato,
não são os meus limites. Mas têm me causado dor, angústia e ansiedade. Isso não
há como negar. Contudo, sigo lidando bem com esses sentimentos, pelo menos é o
que me parece. Quando você se depara com histórias de vida verdadeiramente difíceis,
você consegue notar o quão privilegiada é a sua história. E eu reconheço que
sou privilegiada. Como sou! Por isso ainda não conheci os meus limites. Aliás,
acho que no fundo tenho medo deles.
Pois
bem, essa minha falta de limite não representa outra coisa senão uma evidência
do meu privilégio: meu desafio é o estudo, a produção acadêmica. Só isso, meu
Deus? Que desafio privilegiado você tem, Naiá. Pois é. Aos olhos de milhares de
pessoas isso parece tão simples... talvez não seja. Mas tem me transformado,
isso é o que importa. Já me transformei. Logo logo espero poder voar e ir,
assim como a Frida Kahlo disse um dia. Voar para onde? Ir para onde? Também não
sei, talvez mudar a minha história completamente de lugar, causar abalos sísmicos
dentro de mim. Também não sei se quero isso, mas vamos aguardar.
Mas
quais são essas transformações, afinal? Não sei, talvez o meu estresse tenha
afetado um pouco a minha saúde. Desenvolvi uma tal de neurite vestibular. É um
negócio que parece muito com labirintite. Um belo dia fiquei muito tonta, tudo
girava ao meu redor. E eu fiquei com muito medo. Eu venero a minha saúde, morro
de medo de adoecer um dia. Ahhh, descobri: acho que esse é o meu limite. Mas felizmente
está tudo sob controle. Fui ao médico, estou agora tomando remédios por 60 dias.
Odeio remédios. Nunca fui de tomar remédios. Mas tenho que tomar, não quero
mais ficar tonta. Por tomar esses remédios, tive que me submeter a uma restrição
alimentar, tenho tentado ser firme, mas o médico disse – entre tantas outras
coisas – que eu tinha que parar de beber tanto café e que os remédios iriam me
dar sono. Disse que eu tinha que evitar mais um monte de coisas, mas para mim,
tudo bem. O problema era o café e o sono. Daí fiquei em crise, porque nessa
altura do campeonato, tudo que eu menos posso é dormir demais. Preciso estar
acordada para escrever, produzir. E sem as minhas 5, 6 xícaras de café ao longo
do dia, ainda? Ah, isso é demais para mim. E tem também o colesterol alto. Não
entendo. Ok, mas vamos peitar esse pequeno limite de cabeça erguida. E aqui
estamos... já passei pela metade do tratamento. Mas engordei dois quilos. Isso
está me deixando esquisita. Não gostei de jeito nenhum desses dois quilos a
mais. Isso muda a informação que tenho sobre mim mesma, isso afeta o meu “conhece-te
a ti mesmo”.
E para
que relatar tudo isso? Simplesmente para dizer que uma pequena alteração na
minha homeostase me causou muitas transformações... de transformações fisiológicas
a transformações psicológicas. É isso, a nossa vida é uma totalidade em movimento.
Não somos só corpo, só saúde, só amor, só dor. Circunstâncias históricas nos
definem. Lembre-se: somos uma totalidade. E é isso o que eu tenho para dizer
hoje: “Não
há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move, tudo
revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo).