quarta-feira, 31 de julho de 2024

Ainda existo

Pensei nesse título antes de começar este texto. Não haveria outro título com tantos significados como este. Sim, ainda existo. Estou aqui. Eu, Naiá, com minhas "idiossincrasias", minha singularidade, minha essência. Ainda existe em algum lugar este espacinho de mim para mim dentro de mim. Não parece, mas existe. 

Nesses últimos anos, estive ausente daqui, talvez ausente de mim mesma simplesmente porque me multipliquei. Nos multiplicamos. Me casei, tive dois filhos, as duas coisinhas mais lindas e amáveis deste mundo. A propósito, quero muito escrever alguma coisa, mas preciso ser breve, não posso me prender à estética das palavras, não posso me dar ao luxo de buscar construções linguísticas um pouco mais elaboradas, eu preciso ser bem objetiva, rápida, prática. Esta tem sido a minha condição desde que resolvi estender a minha existência ao mundo por meio de descendentes. Inclusive, a Flora, minha caçula, está está aqui do meu lado no carrinho de bebê emitindo seus vários sons irresistíveis e toda a sua pureza de vida. Comecei o texto, ela estava dormindo.  Estou no segundo parágrafo e tive que parar para pegá-la no bercinho e colocar ao meu lado. Gregório, o mais velho, está na avó. Murilo, o papai, está trabalhando. Quando tenho esses raros momentos de solitude, tudo que eu desejo é fazer algo construtivo para mim mesma. Outro dia, quando tive essa oportunidade, assisti um filme lindo. E é assim que tenho buscado nutrir a minha alma. É raro, mas acontece. 

A vida mudou tanto... tanto externa como internamente. Escrever neste espaço parece tão ultrapassado, tão rudimentar, tão primitivo. Mas eu não poderia deixar de registrar aqui qualquer anotação sobre a atividade que mais tem me movimentado e tomado todo o sentido da minha vida: a maternidade. Para quem é mãe e está lendo isso, deve estar saturada de tanto ler, ver e ouvir outras mães falando sobre maternidade em tempos de algoritmos.

Mas o fato é que ser mãe nos consome em corpo, alma e coração. Por exemplo, escrevi a frase acima entre várias pausas para atender à Flora, que hoje resolveu manifestar algum incômodo, coisa que quase nunca acontece (fui agraciada com uma bebezinha muito tranquilinha, graças a Deus). As pausas foram tantas, que resolvi fechar o notebook e organizar a rotina de sono dela sem interrupções. Resultado? Estou deitada ao lado dela, finalizando essas anotações (sim, já não é mais um texto) pelo celular e desmotivada a continuar escrevendo. Quando se tem mais tranquilidade (como hoje, que estou sozinha com a Flora), a gente quer fazer tanta  coisa… com a mesma intensidade que queremos produzir alguma coisa incrível, também queremos aproveitar para descansar. E é isso que vou fazer. Então, essa tarefa que me propus e não obtive sucesso resume de forma extremamente superficial o que é a maternidade em minha vida. Há infinitas coisas mais a dizer, mas não estou a fim. Não há mais espaço para mim mesma. Mas não desistirei. Ainda existo. 

 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Tudo passa, tudo passará.


É tempo de iniciar ciclos e aqui vou eu! Começarei arriscando retomar aquele tão prazeroso exercício de escrever que costumava me ocupar e preencher meu espírito por tantos anos da minha vida. Não sei se refleti o suficiente nesses últimos dias festivos, conforme ditam as regras ocidentais, mas pensei muito. Engraçado que, ao contrário do que acontece frequentemente quando me dou a pensar demais, neste momento sinto-me leve e plena.

Essa plenitude parece ser herdeira do meu recente entendimento de que tudo passa – e que bom que passa. Semana passada, conversando com a minha avó, que tem seus completos oitenta anos, falávamos sobre o tempo e quantidade de vida depositada nesse tempo. Partilhei com ela o meu sentimento confuso e estranho de já ter vivido trinta anos nesse mundo na intenção de ouvi-la dizer como tem sido viver oitenta anos.

Eu disse a ela que às vezes olho para trás e há tanto acúmulo, há tanta gente, tanta vida, tantas experiências, tantos acontecimentos! Já me vejo contando histórias mencionando um tempo correspondente a décadas. Tenho lembranças muito vívidas de dez, quinze, vinte anos atrás. Será até quando meu cérebro conseguirá multiplicar memórias? Em breve, esses trinta anos que já vivi serão dobrados em sessenta! Já carrego um peso tão grande de tantas experiências, que não sei se serei capaz de acumular o dobro de memórias, dramas, acontecimentos e pessoas em minha vida.

E quando eu mencionei o valor sessenta, me coloquei no lugar dela e disse: “E a senhora, vó, que já tem oitenta!? É muita vida vivida! Como a senhora consegue lidar com tantas memórias, com tanta gente que já passou na sua vida, com tantas coisas que a senhor já viveu?” Foi quando meu avô interrompeu discretamente, como absolutamente nunca faz, dizendo: “...mas a gente esquece de muita coisa”. Ao ouvir isso, parece que soou como um alívio para o meu coração, porque não há subjetividade que suporte essa progressão aritmética de cargas emocionais que vão sendo geradas a cada experiência de vida. E me aliviei um pouco mais quando entendi que se a gente se esquece, é porque as memórias vão se fundindo ou se sobrepondo umas em relação às outras. Significa que muita coisa deixou de ser importante porque nos trouxe aquilo que precisava trazer e passou, acabou. Ufa, que bom que é assim!

E prosseguimos a conversa falando sobre pessoas. Quanta gente passou pela nossa vida e se foi! Gente que achávamos que permaneceria para sempre, gente que muito nos ensinou mas que simplesmente passou. E mais uma vez, que bom que é assim! E eu comentei com eles sobre as várias fases da minha vida e os diversos círculos de amizade e afeto que já protagonizaram aquele determinado presente e que hoje se tornaram apenas lembranças. Pensei inclusive nas últimas pessoas importantes que estão sendo levadas reciprocamente pelas circunstâncias históricas de nossas vidas. E que bom que é assim!

Depois de uma semana dessa conversa, hoje tive um momento catártico. Não temos força o suficiente para manter tudo o que passa pela nossa vida. Somos históricos. Jamais conseguiríamos guardar o mesmo afeto por todas as pessoas que foram importantes em nossa história, porque isso nos sufocaria e nos mataria. Mas absolutamente todas as pessoas que protagonizaram nossas relações nos ensinaram muito sobre a vida. E é exatamente por isso que precisamos assumir sempre o compromisso humano de exercer a lealdade, o respeito, a honestidade, a justiça e a gratidão pelas pessoas que compartilham parte de sua história conosco.

E então acho que me senti bem com o acúmulo dos meus trinta anos e estou disposta a lutar para viver oitenta anos ou até mais, assim como a minha avó. E sinto-me estimulada a viver a intensidade das relações que pulsam no presente momento! E que eu seja sempre inteira em tudo que sou e vivo com as outras pessoas, porque elas passarão, tudo o que vivemos passará, eu passarei, nós passaremos. E o que fica é certamente o produto da maior e mais complexa equação matemática dos anos vividos, que corresponde à peculiar capacidade psíquica que cada um de nós desenvolve para transformar tudo o que vive em potência humana!

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Não há nada absoluto, tudo voa e vai


“Quem lhe deu a verdade absoluta? Não há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move, tudo revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo). Foi essa a frase que li hoje logo no início do meu dia, enquanto tomava café. Estava escrita na biografia do meu instagram. Ainda à mesa, fui exercer essa atividade social moderna que foi impregnada em nossas subjetividades: se atualizar sobre a vida dos outros nas redes sociais. Que cultura péssima, que hábito deteriorante! Logo no início do dia... mas lá estava eu fazendo isso. Por um momento, entrei no meu próprio perfil para fazer aquela autoavaliação esporádica para ver se está tudo certo, se devo mudar alguma coisa, essas besteiras. E então li essa frase. E vi o link do meu blog. Senti saudades. Refleti um pouco mais sobre a frase e vim aqui escrever, mesmo que isso tire vários minutos que poderiam ser dedicados às tarefas acadêmicas que devo cumprir hoje. Que se danem essas tarefas! Estou cansada, muito cansada.

Preciso mesmo é resgatar as coisas que estão esquecidas dentro de mim, preciso parar para pensar nas minhas transformações internas, nas minhas revoluções mais íntimas. Se eu não fizer isso, vou me perdendo dentro de mim. Preciso parar para entender que não há verdade absoluta... tudo se transforma, voa e vai. Assim como eu mesma. Do jeito que Frida Kahlo disse um dia.

Quando vi o link do meu blog, resolvi clicar, fui descendo a barra de rolagem e analisando os títulos dos últimos textos. Cliquei em “pausa para falar um pouquinho da vida acadêmica”, li o texto na íntegra. Eu adoro ler as coisas que escrevo há um tempo, porque vejo que isso é um grande exercício de refletir sobre mim, sobre as coisas que eu tenho pensado nas diversas circunstâncias históricas da minha vida, talvez eu encontre alguma explicação para o que eu me tornei hoje. E a verdade é que eu sempre encontro mesmo. E eu acho que esse exercício responde bem ao clássico aforismo que os sábios gregos nos deixaram: “conhece-te a ti mesmo”. Sim! Conhece-te a ti mesmo! Não há nada mais precioso do que mergulhar em si mesmo para entender tudo que você é e tudo que você representa diante desse mundo.

Descobri que escrever é uma atividade terapêutica. Outro dia, assisti ao filme “beleza oculta”. O personagem representado por Will Smith escrevia cartas para as suas principais dores: o amor, o tempo e a morte. E nesse processo, ele ia compreendendo a dimensão desses três elementos em torno de sua própria vida e, paulatinamente, ia se curando. E foi uma narrativa tão linda, tão sensível, tão verdadeira! E então eu refleti muito sobre essa necessidade de simplesmente escrever. Pontuar os acontecimentos da nossa própria vida de tempos em tempos. Parar para registrar, para expressar, para sentir a sua própria vida pulsando em você e no papel (ou na tela). Isso é mágico, é inspirador!

E o que eu tenho para escrever hoje são coisas corriqueiras sobre o que eu tenho passado nos últimos tempos, sobre os grandes desafios aos quais a vida me tornou subserviente. Na verdade, nem sei se são tão grandes assim. Acho que ainda não chegou o meu limite. Cada um delimita o seu próprio limite. Os meus, ainda não conheço, porque tenho encarado esses desafios com a minha modesta bravura, sem ainda ter me sentido despedaçada ou desesperada. Então, de fato, não são os meus limites. Mas têm me causado dor, angústia e ansiedade. Isso não há como negar. Contudo, sigo lidando bem com esses sentimentos, pelo menos é o que me parece. Quando você se depara com histórias de vida verdadeiramente difíceis, você consegue notar o quão privilegiada é a sua história. E eu reconheço que sou privilegiada. Como sou! Por isso ainda não conheci os meus limites. Aliás, acho que no fundo tenho medo deles.

Pois bem, essa minha falta de limite não representa outra coisa senão uma evidência do meu privilégio: meu desafio é o estudo, a produção acadêmica. Só isso, meu Deus? Que desafio privilegiado você tem, Naiá. Pois é. Aos olhos de milhares de pessoas isso parece tão simples... talvez não seja. Mas tem me transformado, isso é o que importa. Já me transformei. Logo logo espero poder voar e ir, assim como a Frida Kahlo disse um dia. Voar para onde? Ir para onde? Também não sei, talvez mudar a minha história completamente de lugar, causar abalos sísmicos dentro de mim. Também não sei se quero isso, mas vamos aguardar.

Mas quais são essas transformações, afinal? Não sei, talvez o meu estresse tenha afetado um pouco a minha saúde. Desenvolvi uma tal de neurite vestibular. É um negócio que parece muito com labirintite. Um belo dia fiquei muito tonta, tudo girava ao meu redor. E eu fiquei com muito medo. Eu venero a minha saúde, morro de medo de adoecer um dia. Ahhh, descobri: acho que esse é o meu limite. Mas felizmente está tudo sob controle. Fui ao médico, estou agora tomando remédios por 60 dias. Odeio remédios. Nunca fui de tomar remédios. Mas tenho que tomar, não quero mais ficar tonta. Por tomar esses remédios, tive que me submeter a uma restrição alimentar, tenho tentado ser firme, mas o médico disse – entre tantas outras coisas – que eu tinha que parar de beber tanto café e que os remédios iriam me dar sono. Disse que eu tinha que evitar mais um monte de coisas, mas para mim, tudo bem. O problema era o café e o sono. Daí fiquei em crise, porque nessa altura do campeonato, tudo que eu menos posso é dormir demais. Preciso estar acordada para escrever, produzir. E sem as minhas 5, 6 xícaras de café ao longo do dia, ainda? Ah, isso é demais para mim. E tem também o colesterol alto. Não entendo. Ok, mas vamos peitar esse pequeno limite de cabeça erguida. E aqui estamos... já passei pela metade do tratamento. Mas engordei dois quilos. Isso está me deixando esquisita. Não gostei de jeito nenhum desses dois quilos a mais. Isso muda a informação que tenho sobre mim mesma, isso afeta o meu “conhece-te a ti mesmo”.

E para que relatar tudo isso? Simplesmente para dizer que uma pequena alteração na minha homeostase me causou muitas transformações... de transformações fisiológicas a transformações psicológicas. É isso, a nossa vida é uma totalidade em movimento. Não somos só corpo, só saúde, só amor, só dor. Circunstâncias históricas nos definem. Lembre-se: somos uma totalidade. E é isso o que eu tenho para dizer hoje: “Não há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move, tudo revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo).

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Pausa para falar sobre um pouquinho da vida acadêmica

Hoje é dia de halloween e o caráter sombrio do dia coincide com a notícia também sombria e triste sobre o final das minhas férias. Mentira, halloween para mim não significa absolutamente nada! Já as férias... ah, essas significam muito, mas não é sombrio nem triste o fato de elas estarem terminando. É natural, necessário. Férias em outubro, isso mesmo. Vida em movimento, novas possibilidades. Mudei de emprego, estou ausente da escola este ano. Não sei ainda o que pensar sobre isso, acho que estou só sentindo por enquanto. E me sinto desafiada e feliz em estar vivendo essa experiência na secretaria municipal de saúde. Tem sido um bom trabalho. Mas seria bom se eu pudesse conciliar com a escola também. Vamos ver o que a vida reserva para o próximo ano. 

Durante as férias todas fiquei pensando em escrever algo aqui, mas procrastinei. Na verdade, fiz muito e não fiz nada. Foi um momento muito rico para mim. Diante de tantas atrocidades políticas que têm acontecido nos últimos tempos em nosso país, tenho medo de dentro em breve não termos mais o direito legítimo de usufruir das férias (nem nós, funcionários públicos). E esse momento de descanso é tão necessário para a nossa saúde, tão precioso! Para mim, particularmente, é imprescindível, porque são esses momentos “ociosos” que proporcionam em mim uma sede de reflexão e de aprofundamento em mim mesma. E isso me transforma sempre. Eu adoro. 

Mas neste ano foi tudo diferente, tirar férias não teve esse caráter lúdico e descompromissado. Tirei férias para estudar, para produzir, para escrever a minha dissertação do mestrado. Produzi? Que nada! Mas foi muito oportuno, pude ler bastante, escrevi um artigo com uma amiga que me fez aprender muito. Mas a sensação de que eu deveria estar fazendo muito mais me acompanhou fielmente durante esses trinta dias, mesmo que eu tenha lutado contra! A vida acadêmica tem me inspirado muito, percebo que cresci 5 anos em 2, conheci pessoas fantásticas, me aproximei de um universo muito enriquecedor, provei muitas coisas para mim mesma, me senti persistente e guerreira, aprendi grandes teorias e me senti mais potente, mais capaz e hoje acredito mais em mim mesma, apesar de meu orientador me dizer em todos os encontros que eu preciso ser mais segura. Não há limites para o crescimento intelectual, essa é a constatação que tive nesses últimos dois anos. 

Por outro lado, quero falar um pouco sobre a reviravolta psicológica que essa vida acadêmica traz como desafio: é uma goteira de ácido pingando na cabeça de 10 em 10 minutos, causando um incômodo chato e constante. É uma sensação de que tudo que eu faço é pouco, é pequeno e precisa melhorar. É um compromisso que condiciona meus projetos futuros de vida, que me martiriza e me traz um desespero perene de que preciso me esforçar mais, me empenhar mais e fazer melhor o que eu tenho feito. Durante os últimos dois anos, pensei muito que eu poderia lutar por uma licença, que eu gostaria muito de ficar absolutamente dedicada ao estudo, mas hoje percebo que se eu estivesse de licença, esse sentimento de frustração seria ainda pior, porque aí a procrastinação seria bonita! E a frase “Você não faz nada, só estuda, cria vergonha!” iria me enlouquecer a cada dia. 

Na verdade, os mecanismos psicológicos que essa fase tem ocasionado em mim são muito mais profundos, mas não consigo explicar agora e estou com preguiça de pensar em metáforas e firulas, como às vezes faço por aqui para relatar minhas percepções subjetivas. Eu sei que está passando, está quase no fim. Eu ainda não escrevi quase nada, mas até o meio do ano que vem, essa dissertação vai sair! Eu sei que talvez não será com a qualidade que eu sonhei, mas sairá! Precisa sair. E o que significará ser uma mestre? Não sei... meu orientador me fala que eu preciso ser uma boa mestre na minha prática social e não apenas no papel. Concordo com ele. Isso já me mostra muito sobre o que deve significar ser uma mestre. 

Às vezes concordo com o meu pai quando ele me diz que escolhi um caminho difícil demais. Ele tem razão... mas é um caminho que traz a possibilidade de desenvolver ao máximo as potencialidades humanas. E eu acredito que é apenas por meio do estudo que as pessoas se tornam livres e emancipadas. Dentro em breve, que venha o doutorado! E que toda essa trajetória possa contribuir de alguma forma com o mundo, nem que seja na dimensão do meu mísero mundinho!