sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A chave do futuro

Divina não tem TV em casa. Ela não costuma sentir falta; afinal, não se tem falta de algo que nunca se teve. Sua vida é preenchida pela companhia de sua mãe e uma cadela que tem sua idade. Tem também um ursinho de pelúcia que encontrou na beira da estrada, enquanto colhia algodão com a sua mãe. Este foi o dia mais feliz de sua vida. Na verdade, não sei se seria cabível destinar a ela a capacidade de discernir emoções. Ela não sabe o que são emoções; não sabe o que são sentimentos.

Ela é exímia em seu ofício: sabe colher algodão como nenhuma moça de sua idade saberia. E é só isso que ela sabe. Aliás, minto. Sabe também que um dia vai morrer, sabe que existe uma cidade bem distante de sua casa, mas não sabe o que há nessa cidade. Ela tem medo. Ela não quer saber. Como eu disse, ela não sente falta.

Em sua casa existe uma sala, preenchida pelo vazio de um banco longo de madeira; um quarto relativamente pequeno, onde encontram-se uma cama pequena e uma cômoda velha que armazena as raras peças de roupa pertencentes às donas da casa. Há também uma cozinha, com uma mesa cheia de panelas amassadas e brilhantes, com talheres também amassados e brilhantes; um fogão à lenha no canto; um enorme cesto de palha transbordando algodão e um calendário com a imagem de duas crianças preso na parede, servindo como enfeite, já que ninguém ali sabe ler ou escrever. Uma vez, alguém contou às moradoras da casa que cada quadradinho daquele pedaço de papel representava um dia de suas vidas, delimitado através de um intervalo de 24 horas. Divina tinha apenas 10 anos de idade e não compreendeu muito bem.

A partir deste dia, mesmo sem ter entendido muito bem, sempre que acordava, pegava uma caneta velha e rabiscava um quadradinho. Repetiu esta tarefa durante muito tempo, sem nenhum objetivo (afinal, ela não tinha consciência da palavra objetivo). Então, um dia acordou para executar sua tarefa e percebeu que o calendário estava todo marcado. Não havia mais quadradinhos para marcar. Uma voz bem distante, aquela que chamamos de consciência, perguntou a ela: E agora, Divina? O que isso quer dizer? Ela se lamentou por, mais uma vez, não saber.

Depois de um longo tempo, quando sua mãe ganhou de presente um novo calendário de uma equipe de apoio ao sertão, ela descobriu o significado daquelas centenas de quadradinhos: era o transcorrer de um período de um ano. Compreendeu que a vida é composta por anos. E que cada ano tem um início e um fim. E que as pessoas costumam esperar algo diferente para cada ano que nasce. E que algumas pessoas passam pelos anos enquanto para outras, os anos passam por suas vidas. Descobriu que a vida é movida pela esperança e as perspectivas são a chave para um futuro que não se sabe, mas se espera. Entendeu que sua vida era totalmente preenchida por um vazio incalculável. Ela não tinha a chave. Não havia esperança, não havia motivos para esperar. E a sua vida passou pelo tempo assim como a música preenche os ouvidos de um surdo.

2 comentários:

  1. Assim como a música preenche os ouvidos de um surdo. É também a nossa vida nos momentos em que encontramos aquele vazio incalculável que Divina conhece tão bem. Gostei muito, Naiá.

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  2. Mas eu comento novamente sem incômodo algum. Gostei muito da forma que você trabalha as metáforas e analogias. Já entro aqui todos os dias, desde que te descobri (por acaso). E aliás, estou seguindo-te no twitter, o que torna mais fácil, porque ontem assim que você avisou sobre o post novo, vim conferir.

    Um beijo.

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