domingo, 26 de dezembro de 2010

O pássaro e a dor

 

Tem vez que a melhor companhia é a dor. Ela sustenta, cria e recria, alimenta, inspira. A dor é a ponta do contorno que faltava para preencher os objetos de cor. É símbolo de poesia, música, arte. A dor é particular, sustenta a individualidade e leva à descoberta de si mesmo. É a prova viva de que o fim é um só, o futuro é um só: você mesmo.

Entendê-la? Uma bobagem. Evitá-la? Imaturidade. Fingi-la? Falta de amor-próprio. A dor é benévola, por que não? Ela é um pássaro que acabou de nascer. Feio, horripilante e delicadamente monstruoso. Ele precisa crescer e ser alimentado. Ele precisa, sobretudo, voar. Voar é a sua essência. Quando voa, se desprende de quaisquer fronteiras e, definitivamente, cresce. Agora o pássaro é belo e esplendoroso. Estupidamente elegante e invejável. No entanto, está sozinho. Escolheu estar sozinho porque precisou voar.Aos poucos, aprende a enxergar a vida por cima, porque precisou voar. Está agora sutilmente triste, mas tem grande sabedoria. É um aprendizado só seu e no fim, será sempre ele por ele. Ninguém por ele, nada por ele.

Esse é o percurso da dor. Nasce quase devastando o mundo com sua monstruosidade e termina como um aprendizado que não se compartilha com ninguém. É um aprendizado longo e desgastante, que um dia morre. O pássaro morreu e ficou apenas aquela pena com a mistura abstrata de cores que nem Picasso conseguiria reproduzir. O pássaro foi feio, foi grandioso, foi belo e morreu. Morreu e deixou marcas. Foram as marcas da dor.

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