domingo, 10 de julho de 2011

Querem saber?

Tem algum tempo que venho ensaiando algumas palavras. Percebo que me distanciei deste blog por motivos maiores e mais complexos do que a “falta de tempo”. É fato que estive envolvida com assuntos cruciais desta etapa da vida, no entanto admito que o que me distanciou foi o medo de demonstrar o que existe dentro de mim. Hoje me questiono: a quem interessa quem eu realmente sou? A quem interessa o que eu penso ou o que sinto? O que essas ou outras palavras mudariam ou contribuiriam na vida de qualquer pessoa que se permita passar por aqui?

Há quatro anos, quando comecei a esboçar os primeiros posts deste blog, ainda era cúmplice de uma ingenuidade um tanto quanto doce e pura. Eu escrevia o que vinha de dentro de mim, demonstrava o que eu realmente era e tudo o que eu sentia, sem calcular os possíveis sentidos expostos pelas palavras. Eu não era um personagem de mim mesma, era pura e simplesmente eu. Hoje, tudo o que faço parece ser intencional, parece estar encoberto pelo medo de me expressar, pelo medo causado por tudo o que as palavras demonstram de mim mesma. Cresci e regredi, me tornei uma pessoa igual demais, sempre preocupada com os padrões e as estúpidas regras sociais.

Pareço uma boneca modelada por estereótipos que não podem se quebrar. Pareço querer ser sempre politicamente correta: nunca decepcione seus pais, nunca exagere, nunca faça escândalo, não xingue publicamente, não vista aquela roupa inadequada, não ignore a hierarquia social à qual você pertence, nunca desça do salto, não se ache suficiente, não morra de amores, não fique bêbada, não fique brega, não seja ridícula, não seja desequilibrada, demonstre interesse por todas as oportunidades de emprego, destaque-se, destaque-se, seja sempre boa, invista na sua carreira, seja a melhor. E mais do que tudo: tenha auto-controle. Controle sua vida, saiba cultivar boas relações sociais, saiba a quem recorrer, busque status, busque reconhecimento, escreva, leia, aprenda, estude, estude muito, estude bastante. Gaste seu dinheiro com roupas e sapatos, fique bonita; não viva economizando demais, você é nova. Mas controle seu dinheiro, ganhe dinheiro.

Eu me canso de tudo isso, quero paz interior. Quero superar tudo, quero enfrentar tudo, quero ser sempre eu mesma, quero cultivar minha própria opinião. Mas quem sou eu? Uma boneca modelada por todos menos eu mesma? Um projeto de pessoa que não tem identidade e não sabe se posicionar diante da vida? Uma representação viva de submissão e comodidade diante de tudo e de todos? Uma pessoa que se esconde atrás de pensamentos que desejariam por tudo tornarem-se palavras ditas e escancaradas? Hoje, sinceramente não sei quem ou o que eu sou. Eu sei o que eu sinto: descrença, desânimo, indiferença, raiva, melancolia, tristeza, revolta, ceticismo.

Um comentário:

  1. Vicissitudes de Naiá

    Alarido a me recolher
    E o estribo que me montava
    Imbuído nesta lama...
    Corrói-me nesta infâmia
    Num despeito que me altera o ser

    Gestos efusivos de um cordel de espinhos
    Que não tardam
    Que retardam
    E fogem com este espólio que rega em meus caminhos

    A vos escravizar, tornarei a ver
    Em uma soberba de vestes brancas
    Com um furor a me enternecer
    Rumar-se-á pela senda que desencanta

    Quiçá, agora de vermelhos marfins
    Far-vos-ei repreender com este inefável
    Num rechaço de curvos realizável
    A seguir com meu profícuo anexim
    Corda esta que me recorda o fim

    Sereno vil que Márjore há de se desanuviar

    Agora, tácita a não mais estar
    Este esquecer se lembrará
    A fazer mais um belo lucubrar
    Com sorvedouros reflexivos
    E alentos suplantadores de Naiá!

    De: Alucard Waldrich Schneider
    Para: Naiá Márjore

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