Fim de tarde de véspera de natal. Já fiz tudo o que as convenções sociais aconselham fazer neste dia historicamente especial. Fomos ao supermercado pela manhã, a sobremesa que coube a mim fazer já está pronta, o presente do meu amigo secreto está apenas esperando o momento certo de ser entregue, retribuí as felicitações de natal que recebi, acho que exerci um pouco de solidariedade e agora estou aqui sofrendo a hipnose de uma sensação estranha, talvez causada pela solidão à qual estou enclausurada.
Todas essas datas comemorativas que se tornam símbolo de manifestação universal de cultura e ainda quando seus vestígios são percebidos até mesmo na menor das corrutelas distantes desta suposta civilização me fazem refletir um pouco sobre a essência humana. Apesar de todos os indícios que provam a explícita diferença entre os homens, percebe-se de forma nítida o quanto todos nós somos reféns das mesmas aflições e angústias, dos mesmos dilemas subjetivos, das mesmas carências existenciais, da mesma fome pela compreensão.
É fato que os desejos de cada um perpassam pelos aspectos sociais e culturais e que, por se tratarem de fatores determinantes, em certos momentos as diferenças entre os homens se acentuam de tal modo em que a compreensão parece ser uma aspiração inatingível. No entanto, quando percebemos a fraqueza humana, aí sim somos iguais. Nesse sentido, ainda que o natal tenha se transformado em uma data essencialmente mercadológica, não podemos negar que apesar de tudo, o natal ainda propicia a partilha de bons sentimentos, intensificando o significado de família e a importância que esta instituição tem para a constituição histórica de cada ser humano. E esta é a fraqueza: a família fortalece, solidifica o nosso alicerce, constrói laços eternos, mas é justamente a família que nos desestabiliza, que intensifica nossas dúvidas diante de tudo o que somos e esperamos, ela contribui de forma decisiva no direcionamento do futuro que temos a nossa espera.
E hoje, estando cegamente condicionada a pensar e só pensar em família e família (reflexo do 'espírito natalino'), eu me sinto frágil, totalmente confusa, como se existisse uma balança sempre à frente dos meus olhos, me mostrando duas versões sobre o sentido deste "natal", que vai muito além do nascimento do menino Jesus (e que Deus me perdoe, caso eu esteja cometendo blasfêmia, mas fui direcionada a pensar dessa forma). De qualquer modo, Feliz Natal para você que está aí até agora lendo estas palavras iniciadas sem um objetivo determinado e finalizadas sem uma desfecho organizado.
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