Foram incontáveis as vezes que, seguindo o bando, repeti como um papagaio a expressão: “Mente vazia, oficina do Diabo”. Há alguns dias, por força do acaso, parei para refletir sobre esta frase por trás das cortinas da aparência. Percebi que a única função deste ditado é inculcar na cabeça das pessoas que elas PRECISAM trabalhar. E coloco aqui o trabalho como uma relação mantida entre Homem e Natureza, sendo o primeiro responsável pela ação de mediar, regular e controlar o seu metabolismo com esta Natureza. São palavras de Marx. Sabemos que este homem citado acima até realiza esta ação, no entanto, o faz de forma alienada. Nesse sentido, a necessidade de TRABALHAR ou buscar incessantemente pelo TRABALHO é uma forma (capitalista) de preencher o vazio da mente. Eis que se coloca um grande questionamento: preencher que vazio?
Considerando-se o estilo de vida
moderno que mantém uma subserviência inexorável com a ditadura do consumo e ainda
levando-se em conta as mentes (reificadas) que são formadas neste sistema,
entende-se que este vazio é a própria existência. Aqui, existir é vazio, não
faz sentido, não sustenta, não enobrece, não transforma. Então, o que o coitado
do Diabo poderia fazer de pior com esta mente? Ela já está em seu estado máximo
de alienação. A sua capacidade de refletir, questionar ou se desestabilizar já
está falida. O Diabo não conseguiria aproveitá-la para nada.
Mas de qual mente vazia estamos
falando realmente? Penso que ao reproduzir este ditado, de um modo ou de outro,
estamos sustentando mais tentáculos do capitalismo. Consideremos agora uma
mente que busca ser diferente, que apesar de não ser emancipada, mantém um
mínimo de consciência crítica sobre a realidade e busca por transformação e
evolução espiritual. Então, por que não podemos usufruir da liberdade de
esvaziar a mente para refletir, pensar ou questionar? Por que não podemos
esvaziar a mente para nos indignarmos? Estaríamos contribuindo com este “Diabo”?
Que diabo é este Diabo?
Este ser sobrenatural – Sr. Diabo
– seria exatamente a consequência
sofrida por aqueles que escolheram não ser explorados pelo excesso de trabalho:
as condições de acesso aos bens de consumo se reduzem e por outro lado aumentam-se
as possibilidades de evoluir o espírito e a mente. Mas existe um fator
preponderante que poucos suportam: evoluir dói, crescer dói, conhecer a
realidade por trás da aparência dói. E ninguém quer sofrer esta dor. Todos
estão intoxicados pela morfina da alienação. E é tão confortável viver sem
dor... Então, vamos continuar preenchendo o vazio da nossa mente com trabalho, trabalho,
trabalho e trabalho (alienado, claro!)! Vamos fugir desse Diabo tão difícil que
é a liberdade!

Liberdade é um tema tão complicado e tão subjetivo. Porque pensar também, além de crescer, dói. Trabalhar em prol de um consumo exagerado para preencher uma falta. É simplesmente ficar no trabalho, comprar, não preencher a falta, sofrer, trabalhar mais, não preencher a falta... é cíclico. Não é necessário parar e refletir se o que se compra é para algum fim. Porque esse modo de produção está tão intrínseco à pessoa que, mesmo sendo ser que se julga pensante, continua comprando e se mantendo no ciclo.
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