Já faz um tempo que estou afogada
em meio às regras que imputaram à minha própria vida. Nesse afogamento
constante, acabo transgredindo as minhas próprias regras: aquelas que eu
construí a partir da minha subjetividade. E essa doce subjetividade, mesmo
assolada por um cotidiano áspero, ainda insiste em sobreviver com dignidade e muita
força dentro de mim. Às vezes ela se cala, se esvazia e espera a hora certa para
gritar. Mas ela precisa gritar. Eu preciso permitir.
Tudo funciona mais ou menos
assim: estou caminhando em uma velocidade média e, de repente, as regras que eu
não construí, audaciosas e pungentes, se esbarram em mim. Elas chegam em alta
velocidade, gritam comigo, me sacodem, me machucam e me aprisionam. Eu obedeço,
enfraquecida e desamparada. Em pouco tempo, me vejo embriagada por uma falsa
gratidão. Agradeço às regras por me colocarem nos trilhos, agradeço por tudo
estar se encaminhando conforme elas me dizem que é o certo, agradeço pela
disciplina e pela ordem que aparentemente se instalaram em minha vida.
Eis que de repente ouço um
murmúrio que ressoa de uma imensa profundidade. Me parece familiar e amigável, sinto
que já estive ali antes. E então vou cavando um buraco dentro de mim mesma para
tentar ouvir melhor esse murmúrio. Eu digo: “fale, fale mais alto!” E a voz
emerge enfraquecida e melancólica. Aquelas regras ainda parecem estar ali me
vigiando, zombando da minha tentativa de mergulhar nessa profundidade. Percebo a
afronta e decido enfrentar. Grito à voz enfraquecida: “Aguente firme, estou
voltando!”. Luto, luto incansavelmente e alcanço a vitória nessa batalha contra
as regras. E quanto ao murmúrio? Parece que recuou, deve ter se sentido
oprimido. Mas agora eu decido que cavarei incansavelmente até alcançar a sua
profundidade e enfim compreenderei o que ele tem para me dizer. Vou cavando e
cavando, me sinto brava e forte. Ao longo da imersão, meu coração flutua. Tudo
é doce e me traz uma paz de espírito maior que eu mesma.
A voz se calou, mas de repente eu
me encontro com minha história, minhas experiências determinantes, meus afetos,
minhas superações, rostos de pessoas que estão ao meu redor, memórias,
sensações, meus livros, minhas músicas, minhas fotografias, minhas cartas, minhas
parcas produções... tudo vem flutuando em direção a mim de baixo pra cima, sobrevoam
meus olhos e agora estão sobre mim. Olho para cima, vejo aquela nuvem de coisas,
fatos e pessoas, respiro profundamente, abro os braços e começo a girar
sorrindo e saltitando. É a minha subjetividade! Ao constatar tudo isso, me
emociono e percebo: como eu amo tudo que eu sou, como eu amo essa essência! Eis
que a emoção se transforma em leve desespero: como viver intensamente essa
essência?
Neste momento, aquelas regras que
eu acabara de derrotar na última batalha começam a se movimentar, estão vivas.
Abrem os olhos e os direcionam, ácidos, diretamente a mim. Me encaram com um ar
de autoridade. Retribuo ao olhar, mas não me rebaixo. Estou serena e tranquila.
Volto a olhar para cima e continuo girando, sorrindo e saltitando. Encorajada,
resolvo exclamar: “me desculpem, regras malucas, mas vou abraçar agora a minha
essência, não importa o que me diga ou o que faça contra mim!!! Minha essência
é a minha inspiração!”.
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