domingo, 16 de julho de 2017

O grito da subjetividade

Já faz um tempo que estou afogada em meio às regras que imputaram à minha própria vida. Nesse afogamento constante, acabo transgredindo as minhas próprias regras: aquelas que eu construí a partir da minha subjetividade. E essa doce subjetividade, mesmo assolada por um cotidiano áspero, ainda insiste em sobreviver com dignidade e muita força dentro de mim. Às vezes ela se cala, se esvazia e espera a hora certa para gritar. Mas ela precisa gritar. Eu preciso permitir.

Tudo funciona mais ou menos assim: estou caminhando em uma velocidade média e, de repente, as regras que eu não construí, audaciosas e pungentes, se esbarram em mim. Elas chegam em alta velocidade, gritam comigo, me sacodem, me machucam e me aprisionam. Eu obedeço, enfraquecida e desamparada. Em pouco tempo, me vejo embriagada por uma falsa gratidão. Agradeço às regras por me colocarem nos trilhos, agradeço por tudo estar se encaminhando conforme elas me dizem que é o certo, agradeço pela disciplina e pela ordem que aparentemente se instalaram em minha vida.

Eis que de repente ouço um murmúrio que ressoa de uma imensa profundidade. Me parece familiar e amigável, sinto que já estive ali antes. E então vou cavando um buraco dentro de mim mesma para tentar ouvir melhor esse murmúrio. Eu digo: “fale, fale mais alto!” E a voz emerge enfraquecida e melancólica. Aquelas regras ainda parecem estar ali me vigiando, zombando da minha tentativa de mergulhar nessa profundidade. Percebo a afronta e decido enfrentar. Grito à voz enfraquecida: “Aguente firme, estou voltando!”. Luto, luto incansavelmente e alcanço a vitória nessa batalha contra as regras. E quanto ao murmúrio? Parece que recuou, deve ter se sentido oprimido. Mas agora eu decido que cavarei incansavelmente até alcançar a sua profundidade e enfim compreenderei o que ele tem para me dizer. Vou cavando e cavando, me sinto brava e forte. Ao longo da imersão, meu coração flutua. Tudo é doce e me traz uma paz de espírito maior que eu mesma.

A voz se calou, mas de repente eu me encontro com minha história, minhas experiências determinantes, meus afetos, minhas superações, rostos de pessoas que estão ao meu redor, memórias, sensações, meus livros, minhas músicas, minhas fotografias, minhas cartas, minhas parcas produções... tudo vem flutuando em direção a mim de baixo pra cima, sobrevoam meus olhos e agora estão sobre mim. Olho para cima, vejo aquela nuvem de coisas, fatos e pessoas, respiro profundamente, abro os braços e começo a girar sorrindo e saltitando. É a minha subjetividade! Ao constatar tudo isso, me emociono e percebo: como eu amo tudo que eu sou, como eu amo essa essência! Eis que a emoção se transforma em leve desespero: como viver intensamente essa essência?


Neste momento, aquelas regras que eu acabara de derrotar na última batalha começam a se movimentar, estão vivas. Abrem os olhos e os direcionam, ácidos, diretamente a mim. Me encaram com um ar de autoridade. Retribuo ao olhar, mas não me rebaixo. Estou serena e tranquila. Volto a olhar para cima e continuo girando, sorrindo e saltitando. Encorajada, resolvo exclamar: “me desculpem, regras malucas, mas vou abraçar agora a minha essência, não importa o que me diga ou o que faça contra mim!!! Minha essência é a minha inspiração!”. 

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