- Que linda! Os olhos dela são azuis!
Era minha mãe mais uma vez me acordando com o seu escândalo. Dona Cristina era uma amante dos olhos, principalmente aqueles que tinham uma tonalidade diferente. Acreditava sempre que os olhos eram a janela da alma, e nunca se cansava de me dizer isso. Ela ficou encantada com os seus, quando os viu pela primeira vez.
- É mesmo, mãe? Deixe-me ver! – pedi a ela, admitindo a minha curiosidade e o meu orgulho de ter gerado um bebê tão lindo.
- Mas, Taianá, e o nome dela? Você tem que decidir logo, filha. Que tal Ana Clara?
Minha mãe adorava interferir em tudo, até no seu próprio nome ela quis deixar a marca “Cristina”. Apesar de tudo, reconheço que se não fosse a sua disponibilidade para me ajudar a lhe educar, talvez hoje você não seria quem você é. Eu era muito imatura. Eu não tinha condições psicológicas para tomar conta de uma criança naquele momento. Talvez, minha filha, se não fosse a sua avó, pode ser que você nem existisse.
- Não, mãe... eu já disse que o nome da minha filha, quem escolhe sou eu! E eu já tenho um em mente, e não quero mudar!
Quem me deu a idéia de lhe dar esse nome, foi uma amiga que fiz enquanto estava no hospital. Ela tinha um alto-astral invejável, uma alegria constante, sabia sempre como enfeitar com palavras todo o ambiente. Ainda hoje, quando me lembro de como a conheci, me sinto meio constrangida.
Eu havia acabado de acordar. Levantei-me para ir ao banheiro e caminhei em direção à porta. Andei pelo corredor como uma criança impressionada com alguma coisa que não cabia a ela decifrar. Ainda estava meio dopada com os comprimidos que havia tomado na noite anterior. Acho que aquele não era o meu dia de sorte. Entrei no banheiro sem bater, confiante que àquela hora da manhã, não havia praticamente ninguém com as mesmas necessidades fisiológicas que eu. Eu estava literalmente lerda. E mais lerda estava a criatura que encontrei lá dentro usando o vaso sanitário. Foi um momento aparentemente engraçado, mas que me deixou constrangida. Eu ligeiramente pedi desculpas, fechei a porta, e me sentei em uma cadeira ao lado do banheiro. Fiquei esperando e conjeturando o que uma pessoa poderia pensar quando entrava num banheiro e não girava a chave da porta.
Subitamente, vejo alguém se esborrachando no chão. Fiquei estática, não entendia como aquilo havia acontecido. Finalmente, minha bainha de mielina resolveu agir e acelerou a condução do meu impulso nervoso. Impulso esse que me fez socorrer a pobre coitada que só se encontrava naquela situação cômica devido à presença de meus dois lindos pezinhos próximos à porta, que atrapalharam a sua passagem, fazendo-a cair daquela forma.
Era a segunda vez que pedia desculpas àquela moça, dentro de tão pouco tempo. Só que dessa vez, as minhas desculpas não valeram muito, já que depois de conduzi-la ao sofá participante daquele cenário, acabamos descobrindo (eu e a pobre moça) que ela havia quebrado o braço.
Nesse momento eu queria que um buraco se abrisse em volta de mim, para que eu pudesse ficar lá por muito tempo. Até mesmo a minha necessidade fisiológica havia desaparecido depois desse fato tão imprevisível. “Como ela podia ter quebrado o braço?” Era a pergunta que insistia em me deixar preocupada.
[Continua...]
Estou vendo uma Clarisse Lispector nascer?
ResponderExcluirÓtimo!
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