quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tempos de diamante



Houve um tempo em que eu me repousava nas asas infinitas das recordações da infância. Eram lembranças, reminiscências soltas no pensamento, fatos passados que preenchiam a mente de nostalgia e, concomitantemente, de um sentimento doce de história de vida tranquila. Tudo era mel, não havia dor ou pesar.

Esse era o tempo de adolescência. A retina possuía sutis camadas de diamante. Tudo o que se via, resplandecia. O mundo externo era cheio de cores vivas que tornavam-se iluminadas pelo deslumbre da camada de diamantes.

Havia diamantes presos em todos os outros sentidos: tato, olfato, paladar e audição. O mundo era de diamantes, porque tudo era precioso, tudo era forte e intenso demais. Havia intensidade em existir e a memória trabalhava a favor de bons fluidos e recordações tênues da infância.

Ser adolescente era sentir a vida em ebulição, o sangue se transbordando em desejos, sonhos e pequenas ilusões. O mundo começava na mente e terminava no coração. Mundo pequeno, mas completo. O ego sempre foi mais forte que o vazio. Se havia falta, havia também um modo alternativo de suprimi-la. E em meio a devaneios do espírito, no fim, tudo ficava bem. A espera era irrelevante, porque os desejos eram imediatos. Esperar era complexo e confuso demais, era triste, muito triste. Viver não era pura e simplesmente VIVER, era SENTIR a vida.

Hoje não existem reminiscências; nada é vago, só há o concreto, aquilo que é sólido e que invade o ego promovendo um vazio inexorável no espírito. Hoje o passado é grande, a história é pesada, a espera é para sempre. Hoje não se pode SENTIR a vida, é preciso LUTAR pela vida. Hoje o pesar preenche a alma, a realidade dura se dilui nas veias, o coração pulsa insegurança e responsabilidade. O diamante está se tornando pólvora.

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