Nas últimas semanas vivi
experiências significativas e revigorantes. Revigorantes porque sinto que cresci. Experiências
relacionadas à morte. A morte penetrou a minha consciência de forma profundamente
incontrolável e confusa. Me emocionei,
me entristeci, resisti, indaguei, chorei, questionei, me surpreendi. Mas o
sentimento maior foi o de vulnerabilidade. Me senti pesada e instável.
Morrer...
O que é morrer senão a passagem
para uma dimensão confortavelmente desconhecida? Sim, o desconhecido é
confortável, porque é novo. Morrer é, portanto, se deparar com aquilo que é
genuinamente novo. Não conhecemos, não entendemos, mas temos sempre certeza. A
única certeza. E é paradoxal compreender que nossa única certeza é profundamente
desconhecida.
Compreendi que a morte não se
trata de aniquilação. A morte não deve ser banida das nossas vidas como um
assunto desnecessário. Morrer é necessário, e mais necessário é questionar e se preparar para a morte. Pensar
em morrer é filosofar, é aproximar-se de nossa condição humana, é nos diferenciarmos
dos demais seres vivos. Estar em contato com a morte é refletir sobre o sentido
da existência. Morte e vida não devem ser dualidades, mas duas faces de uma
mesma moeda.
E aqui, deixo um trecho de Epicuro que vale a pena ser lido:
Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado.
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