terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O necessário desconhecido da vida

Nas últimas semanas vivi experiências significativas e revigorantes. Revigorantes porque sinto que cresci. Experiências relacionadas à morte. A morte penetrou a minha consciência de forma profundamente incontrolável e confusa.  Me emocionei, me entristeci, resisti, indaguei, chorei, questionei, me surpreendi. Mas o sentimento maior foi o de vulnerabilidade. Me senti pesada e instável.

Morrer...

O que é morrer senão a passagem para uma dimensão confortavelmente desconhecida? Sim, o desconhecido é confortável, porque é novo. Morrer é, portanto, se deparar com aquilo que é genuinamente novo. Não conhecemos, não entendemos, mas temos sempre certeza. A única certeza. E é paradoxal compreender que nossa única certeza é profundamente desconhecida.

Compreendi que a morte não se trata de aniquilação. A morte não deve ser banida das nossas vidas como um assunto desnecessário. Morrer é necessário, e mais necessário é  questionar e se preparar para a morte. Pensar em morrer é filosofar, é aproximar-se de nossa condição humana, é nos diferenciarmos dos demais seres vivos. Estar em contato com a morte é refletir sobre o sentido da existência. Morte e vida não devem ser dualidades, mas duas faces de uma mesma moeda.  

Hoje perdi uma amiga e a dor é imensa. A dor de morrer traz a incerteza de existir. E se existir é incerto, não tornemos a vida banal. E poupando todos os clichês e todo senso comum, mas ao mesmo tempo corroborando com eles, proponho: vamos contemplar cada segundo, vamos viver da forma mais humana possível, vamos valorizar o que há de igual em todos nós: nossa condição humana. Vamos celebrar a vida sem nos esquecer da morte.  

E aqui, deixo um trecho de Epicuro que vale a pena ser lido:

Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la. 

Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.

Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado. 

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