Este final de semana estive a
maior parte do meu tempo na pós-graduação. E enquanto eu entrava em contato com
toda aquela gama de novos saberes, eu também refletia bastante sobre a
dimensão que qualquer tipo de conhecimento traz na vida de um ser humano.
Cheguei em casa, fiquei algumas horas curtindo o ócio de domingo, descansando
um pouco meus neurônios, depois comecei a ouvir música e resolvi acessar o
fundo do meu baú: Legião Urbana. E então as músicas fizeram com que as minhas
reflexões se intensificassem ainda mais, como sempre fazem.
Cheguei então a diversas
conclusões. A cada novo dia, somos pessoas diferentes. Todas as experiências
que adquirimos nos tornam diferentes daquilo que éramos há segundos atrás. A
impressão que eu tenho é que cada vez que conheço novas teorias, vertentes, concepções,
ideias, pessoas, estilos de vida, lugares e sensações, mais confusa e menos
preparada para viver eu me sinto. O conhecimento evolui, mas desconstrói a
visão que temos do mundo. E viver em constante desconstrução, nos desequilibra.
Estou me especializando em
Fisiologia do Exercício. Até aí, nenhum problema, já que me formei em Educação
Física. Eu amo compreender de forma mais específica as funções do corpo, fico
impressionada com a capacidade que o exercício físico tem de transformar até
mesmo as partículas menores e aparentemente insignificantes presentes em nosso
corpo. Fico instigada a querer saber mais e mais. No entanto, também me sinto o
tempo todo incitada a compreender as relações humanas, a forma como a sociedade
se organiza, as particularidades que envolvem política e economia, por exemplo.
Também tenho vontade de aprender sobre tecnologia, sobre mídias, gostaria de
dominar a fotografia, tenho vontade de saber tudo sobre arte e música. Também
fico curiosa com as diversas línguas, gostaria muito de ter segurança e domínio
em relação ao inglês e ao francês. E acima de todas essas outras áreas, eu
gostaria de entender profundamente a filosofia para que eu pudesse conhecer a
mim mesma e, assim sendo, que eu conseguisse trazer reflexos de todo esse
conhecimento para a vida das pessoas ao meu redor, espalhando bons pensamentos
e estimulando atitudes que visam o bem.
E eu, com tantas vontades e
tantas expectativas diante da vida, acabo me sentindo estagnada diante de
tantos quereres e quase nenhum “agir”. Minha mãe sempre me diz que eu tenho que
parar de refletir tanto e passar a agir mais. Concordo, em partes. O que eu não
concordo é com a forma como a sociedade contemporânea tem lidado com todo o
conhecimento que tem sido produzido. Não concordo com essa concepção hegemônica
de classe média de que todos devem estudar, se graduar, se especializar,
tornar-se um ótimo profissional por meio do conhecimento para que, sendo
detentor desse poder, ele possa explorar aqueles que não o têm. Procure um “bom
profissional” e pague com prazer 300 reais por 30 minutos de conversa
(consulta). É o valor agregado ao
conhecimento que ele tem. É justo. Nada mais que justo.
É justo??? Então esse poder vindo
da mente deste “profissional” está acessível apenas a quem tem o outro poder,
mais conhecido como dinheiro. E quem não tem dinheiro, simplesmente está fora. É
margem, é resto, é insignificante. Felizmente não é sempre assim, ainda existem
detentores do conhecimento que o utilizam a favor do coletivo, a favor do todo.
A minha preocupação é que essa ideologia de classe média esteja se impregnando
com muito mais força nas mentes desses novos jovens que buscam uma universidade.
Converso com uma moça ou rapaz de 18 anos, tudo o que eles querem é se formar em
uma área de maior status e que lhe garanta melhores condições financeiras para
que futuramente possa participar ainda mais desse mundinho de classe média que
está fechado em si mesmo e que a cada dia se prende mais a valores deturpados
pelo dinheiro. E, diga-se de passagem, é difícil conviver sempre nesse meio social
e não se olhar no espelho e se perguntar: será que eu me tornei assim?
E então, voltei de ônibus para
casa e fiquei observando os passageiros. Todos concentrados em sua própria
existência, sabe-se lá o que se passa na vida de cada um deles. Fiquei pensando
na probabilidade que eles teriam de ter acesso ao tipo de conhecimento que eu
acabara de adquirir ao longo desta tarde. Acho que seria pequena. E eles
continuam lá, contemplando aquilo que lhes cabe. E quanta coisa ignoram, quanto
conhecimento desprezam o tempo todo. E eu, na minha mediocridade? Quanta coisa
ignoro e o quanto me equivoco o tempo todo? Como me sentir totalmente dona de
mim mesma? Como ser verdadeiramente eu mesma? Afinal, se eu sou a construção e
a desconstrução constante de mim mesma por meio de tudo o que eu vejo, leio,
ouço, faço, por meio de tudo que aprendo, então quem eu sou?
Ótimo texto.
ResponderExcluirVou meditar a respeito dessas idéias tão logo retorne à minha toca.