Esta semana teremos Jogos
Estudantis em Itaberaí. No âmbito da Educação de nosso município, trata-se de
um evento bastante significativo. Jogar é uma manifestação cultural
enriquecedora, desde os primórdios da humanidade. O jogo faz com que as
sensações genuinamente humanas sejam estimuladas. E quanto à competitividade,
mesmo que haja severas críticas sobre este aspecto, também não podemos deixar
de valorizá-la, já que faz parte da essência humana. Além disso, os jogos
escolares enriquecem as relações entre os estudantes, fortalece o vínculo entre
escolas, valoriza o papel dos alunos enquanto pertencentes à sua comunidade
escolar.
No entanto, não são apenas estes
aspectos positivos que tenho visto em minha recente carreira enquanto
professora de Educação Física. Gostaria de pontuar algumas pequenas indignações
no que se refere ao verdadeiro sentido desses Jogos Estudantis.
De início, cabe ressaltar que historicamente
a Educação Física sempre foi vista como uma disciplina marginalizada, como se
trouxesse conhecimentos facultativos e como se a formação humana não requisitasse
tais conhecimentos para a construção de homens e mulheres mais críticos e
reflexivos. No entanto, quando a escola precisa participar de forma
satisfatória dos Jogos Estudantis, aí sim a Educação Física tem papel
importante. Em poucos meses (ou poucos dias), os professores desta área do
conhecimento devem se responsabilizar por organizar tudo o que for necessário
para que os alunos participem desses jogos, a fim de garantir reconhecimento
para a escola. E a equipe gestora, demais professores e funcionários da escola,
alunos, pais, amigos... todos se
mobilizam em prol desse grande evento. No entanto, aqueles que estão à frente do
poder ignoram o fato de que nós temos um currículo a ser seguido e que somos
responsáveis por transmitir conhecimentos universais, conhecimentos sobre a
cultura corporal. Ignoram que estamos ali presentes para ensinar estes alunos e
alunas a pensarem o seu próprio corpo de forma crítica.
E então, quando estamos à frente
da organização dos jogos, a base superior da hierarquia organizacional da
escola cobra o rendimento esperado, cobra treinamento dos alunos, cobra exame
médico, ou seja, cobra inúmeras questões que já deveriam ser pensadas desde os
anos anteriores. Ou ainda, que deveriam estar sendo pensadas dia após dia por
profissionais direcionados a isso, não apenas nas vésperas dos jogos. E durante
este período, os nossos alunos ficam eufóricos, cobram nosso posicionamento
diante dessas falhas, querem treinar, querem participar, querem saber o que
acontece se ganharem, querem saber quando e para onde irão viajar depois que
ganharem os jogos. E eu, enquanto professora, me envolvo com todas essas
emoções e fico à mercê da incerteza do que virá pela frente.
Para quem não conhece de perto
como funcionam estes jogos, o processo seletivo começa já no seio da própria
escola. Os melhores jogadores são “escolhidos” no Interclasse (E aqui cabe um
parêntese: como eu sofro neste período!). Em seguida, vem o Intercolegial, que
será o desta semana (25 e 26/04/2014). No intercolegial, várias escolas –
inclusive de municípios vizinhos – jogam entre si, a fim de selecionar os
melhores atletas. Estes vão para a fase pólo, que determina os melhores de uma região
maior. Depois da fase pólo, vem a fase Estadual. Por último, temos a fase Nacional.
E então, os melhores “atletas” acabam sendo selecionados como “novos talentos”
e o governo federal investe nesses talentos por meio de políticas públicas
voltadas para o esporte.
É uma forma incrível de plantar
sonhos na mente dos nossos alunos. No entanto, esses sonhos são tirados de suas
vidas muito cedo, já que nos últimos anos, nem mesmo a fase pólo chegou a
acontecer. Quando eu soube desta informação, fiquei em fúria. E me veio o
seguinte questionamento: sendo assim, então qual é o sentido de nos esforçarmos
tanto para a realização destes jogos? Nossos alunos deixam de jogar uma vez,
duas vezes, logo crescem, deixam de conhecer estas oportunidades e então eu
começo a ver todo esse processo passando pela minha frente de forma inexorável
e eu me vejo completamente estática, sem ação. E o incrível é que todos os meus
colegas estão confiantes que as próximas fases acontecerão este ano, pois se
trata de um ano político. Me dá náuseas, vontade de vomitar na cara dos nossos
representantes políticos.
Agora, eis que surge o
questionamento mais indignante: a escola serve para formar atletas? Bom, tenho
consciência de que esporte é uma das manifestações culturais mais enraizadas em
nossas mentes e costumes. É bonito de se ver, transcende limites humanos,
transforma a vida das pessoas. Mas o esporte também exclui, pune, castiga, traumatiza.
E além de tudo, tem sido alvo de grandes polêmicas, porque o esporte, que
deveria ser uma prática corporal transformadora, tem servido para dar ainda
mais gás a toda esta gama de politicagem e corrupção que temos assistido
sentados em nosso sofá todos os dias. E agora doeu mais em mim, porque entendi
que tudo isso começa a partir de um simples Intercolegial que acontece pelas
metades. E eu corroboro com isso, eu participo disso. Então, se você leu até aqui
todo esse desabafo, é porque também se preocupa com estas questões. Sendo
assim, qual a nossa alternativa?
Jogos Estudantis 2013 - Itaberaí - GO

Nenhum comentário:
Postar um comentário