segunda-feira, 21 de abril de 2014

Jogos Estudantis - será mais um estopim para a corrupção?

Esta semana teremos Jogos Estudantis em Itaberaí. No âmbito da Educação de nosso município, trata-se de um evento bastante significativo. Jogar é uma manifestação cultural enriquecedora, desde os primórdios da humanidade. O jogo faz com que as sensações genuinamente humanas sejam estimuladas. E quanto à competitividade, mesmo que haja severas críticas sobre este aspecto, também não podemos deixar de valorizá-la, já que faz parte da essência humana. Além disso, os jogos escolares enriquecem as relações entre os estudantes, fortalece o vínculo entre escolas, valoriza o papel dos alunos enquanto pertencentes à sua comunidade escolar.

No entanto, não são apenas estes aspectos positivos que tenho visto em minha recente carreira enquanto professora de Educação Física. Gostaria de pontuar algumas pequenas indignações no que se refere ao verdadeiro sentido desses Jogos Estudantis.

De início, cabe ressaltar que historicamente a Educação Física sempre foi vista como uma disciplina marginalizada, como se trouxesse conhecimentos facultativos e como se a formação humana não requisitasse tais conhecimentos para a construção de homens e mulheres mais críticos e reflexivos. No entanto, quando a escola precisa participar de forma satisfatória dos Jogos Estudantis, aí sim a Educação Física tem papel importante. Em poucos meses (ou poucos dias), os professores desta área do conhecimento devem se responsabilizar por organizar tudo o que for necessário para que os alunos participem desses jogos, a fim de garantir reconhecimento para a escola. E a equipe gestora, demais professores e funcionários da escola, alunos, pais, amigos... todos  se mobilizam em prol desse grande evento. No entanto, aqueles que estão à frente do poder ignoram o fato de que nós temos um currículo a ser seguido e que somos responsáveis por transmitir conhecimentos universais, conhecimentos sobre a cultura corporal. Ignoram que estamos ali presentes para ensinar estes alunos e alunas a pensarem o seu próprio corpo de forma crítica.

E então, quando estamos à frente da organização dos jogos, a base superior da hierarquia organizacional da escola cobra o rendimento esperado, cobra treinamento dos alunos, cobra exame médico, ou seja, cobra inúmeras questões que já deveriam ser pensadas desde os anos anteriores. Ou ainda, que deveriam estar sendo pensadas dia após dia por profissionais direcionados a isso, não apenas nas vésperas dos jogos. E durante este período, os nossos alunos ficam eufóricos, cobram nosso posicionamento diante dessas falhas, querem treinar, querem participar, querem saber o que acontece se ganharem, querem saber quando e para onde irão viajar depois que ganharem os jogos. E eu, enquanto professora, me envolvo com todas essas emoções e fico à mercê da incerteza do que virá pela frente.

Para quem não conhece de perto como funcionam estes jogos, o processo seletivo começa já no seio da própria escola. Os melhores jogadores são “escolhidos” no Interclasse (E aqui cabe um parêntese: como eu sofro neste período!). Em seguida, vem o Intercolegial, que será o desta semana (25 e 26/04/2014). No intercolegial, várias escolas – inclusive de municípios vizinhos – jogam entre si, a fim de selecionar os melhores atletas. Estes vão para a fase pólo, que determina os melhores de uma região maior. Depois da fase pólo, vem a fase Estadual. Por último, temos a fase Nacional. E então, os melhores “atletas” acabam sendo selecionados como “novos talentos” e o governo federal investe nesses talentos por meio de políticas públicas voltadas para o esporte.

É uma forma incrível de plantar sonhos na mente dos nossos alunos. No entanto, esses sonhos são tirados de suas vidas muito cedo, já que nos últimos anos, nem mesmo a fase pólo chegou a acontecer. Quando eu soube desta informação, fiquei em fúria. E me veio o seguinte questionamento: sendo assim, então qual é o sentido de nos esforçarmos tanto para a realização destes jogos? Nossos alunos deixam de jogar uma vez, duas vezes, logo crescem, deixam de conhecer estas oportunidades e então eu começo a ver todo esse processo passando pela minha frente de forma inexorável e eu me vejo completamente estática, sem ação. E o incrível é que todos os meus colegas estão confiantes que as próximas fases acontecerão este ano, pois se trata de um ano político. Me dá náuseas, vontade de vomitar na cara dos nossos representantes políticos.


Agora, eis que surge o questionamento mais indignante: a escola serve para formar atletas? Bom, tenho consciência de que esporte é uma das manifestações culturais mais enraizadas em nossas mentes e costumes. É bonito de se ver, transcende limites humanos, transforma a vida das pessoas. Mas o esporte também exclui, pune, castiga, traumatiza. E além de tudo, tem sido alvo de grandes polêmicas, porque o esporte, que deveria ser uma prática corporal transformadora, tem servido para dar ainda mais gás a toda esta gama de politicagem e corrupção que temos assistido sentados em nosso sofá todos os dias. E agora doeu mais em mim, porque entendi que tudo isso começa a partir de um simples Intercolegial que acontece pelas metades. E eu corroboro com isso, eu participo disso. Então, se você leu até aqui todo esse desabafo, é porque também se preocupa com estas questões. Sendo assim, qual a nossa alternativa?

Jogos Estudantis 2013 - Itaberaí - GO

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