Estive pensando bastante sobre os
ínfimos sentidos e significados da nova forma de linguagem preconizada pelas
redes sociais: as “curtidas”, ou “likes”, como preferirem. Curtir qualquer
coisa é o mesmo que estabelecer um meio de comunicação superficial e sem nenhum
tipo de vínculo entre o emissor e o receptor da mensagem. Aliás, quem é o
receptor daquilo que postamos nas redes sociais?
Outro dia, conversando com uma
amiga, ela me disse: “fiquei bem naquela foto que você curtiu?” Internamente,
fiquei tentando me lembrar qual seria a foto, ela me disse que geralmente eu
não costumo “curtir” as fotos dela. Fiquei feliz por um lado, surpresa por
outro, porque confesso que uso de forma tão arbitrária essa função de “curtir”,
que não soube explicar pra ela porque não costumo curtir suas fotos, mesmo ela
sendo tão importante para mim. Talvez seja este o motivo, ela é importante e
por isso não saio curtindo tudo que ela posta. Eu tenho convicção que a nossa
amizade vai além das redes sociais e, sendo assim, curtir ou não curtir não
fará a mínima diferença.
Por outro lado, é muito
contraditório, porque existem outras pessoas com as quais eu não tenho nenhum
tipo de vínculo (e inclusive nem sequer as conheço pessoalmente) e já me
deparei “curtindo” e sendo “curtida” por elas. E então, como moro no interior, saio para
comer em um lugar qualquer, sei de quase tudo da vida da pessoa por meio das
redes sociais, mas por um motivo até então inexplicável para mim, não conseguimos
trocar um “oi”real. Trocamos curtidas, nos comunicamos de forma “muda” pelas
redes sociais, sei da existência dessas pessoas e vice-versa, porém fingimos
que não nos conhecemos. Eu já quis várias vezes cumprimentá-las para dar
prosseguimento a essa relação “virtual” aparentemente sem sentido, em algumas
vezes tive sucesso, mas quase sempre foi uma tentativa frustrada.
Curtir... penso que a gênese
dessa ideia tinha outra intenção. “Curtir”, no sentido semântico da palavra, é
uma forma jovem e descolada de dizer quando você realmente gosta de alguma
coisa. Sejamos honestos: quantas vezes você já curtiu alguma coisa porque
realmente gostou? Você pensa antes de clicar? Quanto a mim, já me vi curtindo
postagens em diversas situações: quando eu realmente considero a postagem interessante,
quando eu tenho uma afinidade de ideias com o emissor da mensagem, quando eu
realmente percebi qualquer tipo de beleza na imagem, quando a pessoa da foto é
realmente bonita, entre várias outras. Mas confesso que já curti para provocar,
já curti ironicamente, já curti só para a pessoa ter certeza de que eu estou
sabendo daquela novidade. E da mesma forma que as minhas curtidas são muito
subjetivas, a forma como eu encaro as “curtidas” nas minhas postagens também é
muito subjetiva. Inúmeras vezes me pergunto qual a intenção de determinada
pessoa ao curtir as minhas coisas. E fico em constante reflexão sobre essas
mensagens mudas por meio das “curtidas”.
Vigiamos e aprendemos muito sobre
as pessoas por meio de suas curtidas. E essas informações são tão escancaradas,
é tudo tão público, que tornamo-nos reféns desse complexo incontrolável que são
as redes sociais. Outro dia um amigo meu me disse: Nossa Naiá, você escreveu
aquilo tão bonito para aquela sua amiga e ela simplesmente curtiu, nem comentou
nada. Fiquei super pensativa sobre isso, porque realmente, ela apenas “curtiu”
algo que havia escrito diretamente para ela com muito carinho. Ou seja, fazemos
um gesto de carinho e, meio que como uma estratégia, já esperamos exatamente
como será o comportamento da pessoa. Conseguimos prever as coisas, conseguimos
arquitetar coisas em nossas mentes. Isso é altamente punitivo para nós mesmos e
simplesmente não nos damos conta.
E então fico me perguntando até
onde vai todo esse jogo virtual de “likes”, que tipo de relações estamos
criando e quais os sintomas psicológicos que isso pode gerar em nós. Vivemos a
nossa vida real em troca de curtidas virtuais. Eu sofro dessa doença moderna,
confesso abertamente. Sofro as consequências disso. Trabalhamos, viajamos,
estudamos, nos divertimos, namoramos, compartilhamos bons momentos com a nossa
família e sempre esperamos “likes” e mais “likes”. Somos extremamente reféns
desses números, queremos quantidade. Quanto mais gente curtindo, melhor (Nem
preciso abrir um parêntese para comentar sobre a onda mercadológica e perversa
do tal de “toco likes” no instagram, ou preciso?). Mas alguém já parou para
pensar qual a intenção de cada “like” desses? Quantas pessoas realmente te
conhecem? Quantas pessoas realmente querem o seu bem ou gostam de você?
Às vezes sonho em abandonar todas
as redes sociais e viver a plenitude da minha vida real. Ainda farei esse
exercício, preciso de mais algumas doses de maturidade e sabedoria. Até lá,
tentarei explorar o que há de melhor nessas relações. Quando eu compreender que
a vida vai muito além dessa aparência controlada, quando eu perceber que
compartilhar boas gargalhadas com uma ou duas pessoas reais é muito mais
divertido do que postar que “estou ótima” para legitimar uma certa pseudofelicidade,
quando eu entender que posso usar outros meios para compartilhar informação e
conhecimento com pessoas que pensam como eu, aí sim serei uma pessoa livre. E
sobre essa postagem, quem será que realmente vai curtir porque leu até aqui?
Estou curiosa.
Oiii!! Eu curti, e curti muito ler até o final! Sábias palavras as suas. Reflete muito o que penso. Reféns dos "likes"... Certa vez, minha mãe (estritamente no sentido biológico da palavra) me ligou porque eu curti uma foto da tatuagem da minha cunhada. Ela me disse: Você está curtindo o pecado dos outros...
ResponderExcluirExiste gente tão alienada por trás dos computadores, que vivem em função daquilo. Chega a ser triste.
Eu sei que sou uma das milhões, quiçá bilhões, de pessoas que sofrem com esse vício maldito. Mas não almejo viver sem, se tão somente conseguir controlar essa vontade louca de verificar meus likes... rsrsrs... Abraços, adorei conhecer o blog!
Oi Hellen!
ExcluirPoxa, você acredita que eu nunca tinha visto esse seu comentário? EStou muito feliz, porque ninguém nunca comenta nada aqui, então eu nem fico ligada nessas coisas... daí de repente me surpreendo com dois comentários! Muito obrigada, ainda que seja um agradecimento depois de mais de um ano! Mas antes tarde do que nunca!
Adorei o seu texto. Realmente vivemos em um mundo onde queremos nos firmar para a sociedade. Esperamos por likes e mais likes, quando deveríamos pensar em nos mesmos, parar e refletir, enxergar o próprio umbigo. Eu já fiz esse exercício de sair das redes sociais, foi muito bom para mim, percebi que não faz falta ficar sem olhar a vida alheia. Mas senti falta também de amigos distantes, de ver fotos de pessoas queridas para saber se elas estão bem. Descobri que as pessoas hoje não ligam umas para as outras como era antigamente para contar algo de bom que aconteceu com ela. Elas ligam apenas para relatar de problemas, as coisas boas ficam lá nas redes sociais, justamente para receberem os likes. Depois de um mês sem rede social descobri que várias amigas minhas que eu considerava próxima estavam grávidas, perdi formaturas que fui "convidada", aniversários, descobri que o bebê daquela amiga minha nasceu e ninguém teve a capacidade de me contar... ou seja perdi muita coisa. No entanto, resolvi voltar e quando voltei fui bem recepcionada, muita gente me parava para perguntar o porque que eu havia saído das redes sociais, muita gente me disse que adorava meus posts. É um exercício muito bom, mas é isolante! kkkk
ResponderExcluirOoii!
ExcluirMuito obrigada pelo comentário... gostaria de conhecer sua identidade! rsrs
Realmente, você tem toda razão: quando ficamos fora desse mundo virtual, somos excluídos da vida real também! É muito irônico e contraditório.