Eu sempre tive muito preconceito em relação ao campeonato UFC. Sempre resisti a assistir uma luta, porque a mídia já divulgava e reproduzia tanto aquelas cenas, que sem assistir uma luta do início ao fim, eu já podia construir minimamente algumas percepções. Eu ficava me perguntando: “qual o objetivo disso? qual o sentido? Por que castigar o corpo a tal ponto? Por que violentar aquilo que representa a preciosidade da existência nesse mundo?”
Como defensora incisiva das práticas corporais como um todo, também cheguei a buscar alguns argumentos que justificassem essa prática, que trouxessem algum ponto positivo. E então me veio à mente que as lutas são parte da história da humanidade, representam a conquista da própria sobrevivência. Lutar é uma manifestação da legitimidade humana. Eu praticava karatê quando era adolescente e amava. Amava porque fazia sentido, porque eu aprendi valores humanos, porque eu não violentava meu próprio corpo. Mas, por outro lado, não se pode negar que as lutas simbolizam também a reprodução das injustiças e, de certo modo, representam a barbárie.
Enfim, ontem resolvi assistir a “tal” da luta do Vitor Belfort contra Chris Weidman. Hoje sei escrever o nome deles porque pesquisei no google, porque até ontem, eram meros desconhecidos na minha vida e que, de fato, não faziam a mínima diferença. Hoje também sinto-me livre para escrever, porque posso afirmar que tive a experiência de ver uma luta. Geralmente, falar de algo que não se sabe ou nunca se viu é covardia. Humanamente, reconheço todo o esforço e a dedicação que esses lutadores tiveram, reconheço que para a subjetividade de ambos, aquela luta representava um sonho a ser conquistado. Reconheço que para que chegassem àquele ponto, batalharam, “lutaram”, abriram mão, se submeteram, se humilharam... enfim, mereceram (?). No entanto, nenhuma dessas considerações meramente “reprodutivistas” justifica, ao meu modo de pensar, a necessidade de fazer com que eles violentassem seu corpo daquela forma. Sangrar no tatame?
Para mim, esses lutadores não passam de marionetes do espetáculo. Quando vi a cena de cada um, individualmente, entrando no tatame, as câmeras focando seus rostos, a expressão de “hombridade” e “virilidade” que faziam tentando mostrar o quão imbatíveis e destemidos eram, fiquei realmente entristecida. E a tristeza veio de forma mais dolorosa quando eu via a expressão da plateia naquela euforia animalesca inexplicável ao ver dois seres humanos prontos para serem “destruídos”. Fiquei assustada. Cheguei a virar o rosto para não ver. Aquilo, de fato, não me interessava. Todo aquele cenário remeteu à minha mente os vídeos de Hitler ditando seus princípios psicopatas à multidão de alemães que eu já vi ao longo da minha vida. Me fez pensar naquela lavagem cerebral nazista que fizeram aos alemães na década de 30. Isso é barbárie, isso é perverso. Não há nada de humano nisso. Não se iludam, esse tipo de manifestação cultural não se distancia muito do nazismo.
Talvez eu esteja sendo radical na forma como estou me expressando, porque de fato escrevo com uma certa fúria em meu coração. Mas a ideia é essa, a lógica desse campeonato é extremamente perversa, regride à condição mais primitiva do homem: o instinto. E o que eu gostaria de dizer com tudo isso é: somos mais do que instinto, temos capacidades inimagináveis, temos um cérebro inexplorável em toda a sua dimensão, temos forças espirituais desconhecidas, mesmo com toda a ciência e tecnologia do século XXI. Portanto, não precisamos ficar sentados em frente à TV aplaudindo esse cenário de barbárie explícito. Façamos mais pelo mundo. Sejamos mais humanos.

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