Hoje, enquanto eu saboreava meu delicioso picolé de murici (que tem se tornado um hábito, quase um vício) sentada no banco da praça do coreto, me deparei com uma cena que me fez pensar. Um menino de uns 5 anos chegou com sua mãe para comprar uma pipoca. Então, ele observou que o moço havia entregado um troco à mulher que estava sendo atendida antes. Espontaneamente, como é a marca registrada de toda criança, ele se dirigiu ao moço da pipoca e perguntou: Você ganha muito dinheiro aqui? Ele apenas deu um sorriso, disfarçadamente, e direcionou o olhar para a mãe do garoto. Daí então, o menino disse: “Eu quero ganhar muito dinheiro um dia!”. Sabiamente, e com uma tonalidade doce na voz, a mãe disse: “Então você precisa estudar muito, meu filho”, já puxando o garoto pelo braço para irem caminhando adiante. Antes de se sair do lugar, o garoto disse, veementemente: “Mas eu quero ganhar dinheiro aqui, mamãe”, apontando para o carrinho de pipoca.
E então fiquei pensando naquela profissão: vendedor de pipoca. Qual a representatividade de um vendedor de pipocas no nosso mundo? O que ele faz, como ele contribui com a nossa sociedade, quem o reconhece, quem ele é, afinal? E por alguns segundos imaginei como estaria aquele garotinho, daqui uns 20 anos, se estivesse ocupando o cargo de “vendedor de pipoca”. Provavelmente, estar ali significaria que ele fez escolhas “erradas” na vida, significaria que ele não lutou por um “lugar ao sol”, não competiu por um emprego de alto renome no “mercado” de trabalho, significaria que ele não estudou conforme a mãe aconselhara naquele remoto 02 de junho de 2015.
Poderia ser que ele não tivesse estudado o que a sua mãe esperava, mas vamos mudar o desfecho da história desse nosso personagem "garotinho desconhecido". Pode ser que ele tivesse sim estudado, pode ser ainda que ele tenha sido tão sábio e tão sensível em suas escolhas, que passou a enxergar o mundo com outros olhos. Pode ser que justamente o fato de ele ter estudado, deu a ele uma liberdade legítima para escolher o que ele queria fazer com o seu conhecimento. Pode ser que tivesse escolhido estar ali vendendo pipocas apenas para sentir a humanidade das pessoas a sua volta, para que ele pudesse investigar de perto as relações humanas, para que ele pudesse observar de perto o cotidiano de uma praça - a Praça do Coreto da Cidade de Goiás - e construir suas reflexões e quem sabe intervir naquele espaço e transformar o que estivesse ao seu alcance.
Estou supondo ainda que esse nosso garotinho havia adquirido, ao longo de sua história, um nível exímio de sabedoria por meio do conhecimento que ele escolheu buscar. Suponho que o seu nível de humanidade era tão grande, que aquele seu coleguinha da escola que agora havia se tornado um cientista renomado, se sentia ofuscado pela energia radiante que esse mero “vendedor de pipocas” resplandecia. Mas por que ele era tão diferenciado? O que ele tinha de tão especial? Simples, ele tinha amor pelas pessoas e pela vida. Mas como ele conseguiu tanto amor? Escolhendo ser um “perdedor”.
Mas... calma, amigos. Isso é só um pensamento abstrato mirabolante vindo da mente de uma pessoa que "perde" muito tempo de sua vida fugindo da sua realidade. Realidade esta que exige que sejamos excelentes filhos, ótimos estudantes, exímios profissionais, que ganhemos muito dinheiro, que trabalhemos incansavelmente, que sejamos detentores de uma saúde heroica, que estejamos sempre preparados e capazes para consumir, comprar, comprar, comprar. Realidade esta que nos classifica e nos categoriza de acordo com aquilo que temos, ou ainda, de acordo com nossos títulos e certificados. Realidade esta que não permite que falemos o que pensamos, porque de fato, muitas vezes nem pensamos mesmo (não fomos formados para isso). Enfim, essa pequena história do menino e da pipoca era apenas um pensamento abstrato mirabolante que, por mais que me afastasse momentaneamente da minha realidade, confesso que me proporcionou um grande momento de alegria e prazer.
PS: Se você, caro amigo do facebook que está embalado pelo ritmo frenético e avassalador desse mundo injusto e perverso (sem vírgulas e com muitos adjetivos justamente para dar esse efeito de loucura desse mundo louco), não entendeu ainda porque esse nosso garotinho da história escolheu ser um perdedor, ouça a música que me inspirou para contar-lhe essa pequena história: “O vencedor – Los Hermanos”. (link aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Dg_ZL_gd7NQ)

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