Há quase 4 anos, minha função nesse mundo é ser professora. Todos sabemos, ao menos teoricamente, sobre a importância dessa profissão para a sociedade. Geralmente, nessa correria frenética do dia a dia, assumo essa função social sem refletir sobre o peso que carrego comigo e sobre a responsabilidade que tenho em relação à construção de diversas histórias de vida. Percebi isso hoje por meio de uma tarefa cotidiana e aparentemente banal de ser professora: corrigir provas.
Antes de falar sobre a reflexão desse momento em específico, gostaria de dizer o que penso sobre o significado de uma “prova”. O termo, por si só, já me incomoda um pouco, porque nos induz a pensar que o aluno deve provar o que sabe e, pensando dessa forma, é como se nada do que ele soubesse para além dessa “prova” fosse importante nesse momento. É como se ele estivesse sendo classificado ou categorizado como bom ou ruim, mediante apenas àquele conteúdo restrito que se exige para uma determinada prova. Não estou me posicionando contra este instrumento avaliativo, mas fico pensando como seria interessante se pudéssemos contar com outras formas de avaliar e valorizar o conhecimento que o aluno adquire ao longo de sua vida.
E então, como preciso medir o conhecimento dos meus alunos por meio de resultados quantitativos, fica difícil fugir dessa lógica. Eu mesma construí a minha história de vida baseada nessa perspectiva educacional. Fui formada assim, precisei alcançar diversos tipos de metas para conseguir exercer esse papel no mundo: ser professora. Precisei tirar nota boa nas provas da escola, nas provas da faculdade, precisei tirar uma nota boa no processo seletivo (prova) para o emprego que conquistei... Enfim, durante a vida inteira me submeti a essas “provas”, sendo que, de fato, para ser quem eu sou e para pensar como eu penso, eu não preciso provar nada a ninguém.
E aí, ao corrigir as provas dos meus alunos, me deparo com um turbilhão de pensamentos. Tenho ótimos sentimentos, mas também tenho sentimentos muito ruins. O que eu gostaria de compartilhar com vocês são esses “ótimos” sentimentos, porém, um pouco perigosos para quem é professor: nossos alunos conseguem reproduzir direitinho o que ouviram de nós. Às vezes, consigo identificar na escrita deles, termos, expressões e exemplos que eu expliquei, que eu disse, que de certa forma, também é parte de mim.
O incrível disso (e que também pode ser o perigo) é perceber que eles reproduzem nossas falas, nossas ideias. Quando essas falas e ideias fazem parte do arcabouço de conhecimento científico, quando são parte de um currículo pensado e articulado de acordo com as necessidades de cada comunidade escolar conectadas com a realidade social como um todo, quando fazem parte dos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade, tudo bem. O difícil é quando essas falas e ideias fazem parte de uma individualidade fragilizada e equivocada de um professor que não possui formação adequada para exercer a sua função. Difícil é quando as falas e as ideias desse professor reproduzem as injustiças sociais e contribuem apenas para legitimar as desigualdades. Difícil é quando esse professor ensina aos alunos o que não deve ser ensinado. Isso sim é difícil.
Diante disso, penso que a reflexão que cabe para este momento é: nós, professores, somos responsáveis por contribuir com a história de vida de cada um de nossos alunos, de modo que possamos transmitir a eles conhecimentos mínimos necessários para que tenham condições de serem sujeitos de si mesmos, que sejam protagonistas de sua própria vida. Somos responsáveis por incentivá-los à luta cotidiana da vida, de forma que possam compreender melhor o mundo em que vivem e que, assim sendo, possam trazer soluções para os problemas locais e, quiçá, globais. Sinto, portanto, que essa história de ser professor não é pra qualquer um. Não seja professor se você não está a fim de passar por tudo que passamos, não seja professor se você não acredita que você tem poder de transformar, não seja professor apenas porque não desenvolveu outras competências na vida para desempenhar outros papéis nesse mundo. Seja professor para entrar de mangas arregaçadas nessa luta. Seja professor por amor.
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