Quando queremos conhecer alguém ou tentar compreender minimamente o seu
comportamento, é fundamental ouvir a sua história de vida. E hoje eu tive a
experiência de ouvir a minha própria história de vida falando: a minha avó.
Conversamos por algum tempo. Eu, minha mãe, minha irmã e
ela. Ela nos contou sobre as dificuldades que teve quando foi mãe, contou
também vários fatos corriqueiros que me fizeram compreender muita coisa sobre
ela, sobre minha mãe, sobre mim e sobre a vida, sobretudo a vida. Comecei a
pensar então que por maior que seja a barbárie desse mundo moderno, por maior
que sejam as dificuldades do nosso cotidiano, por maiores que sejam a
exploração humana e as injustiças, por maior que seja o consumismo, comecei a perceber
que há vantagens em viver no século XXI. Sim, existe mais amor. Isso sou eu
escrevendo, ninguém precisa concordar, talvez eu esteja inebriada pela vontade
tão imensa de acreditar no lado bom da humanidade. E talvez seja fácil para
mim, que cresci no meio de tanto amor, fazer essa afirmação.
Mas ao ouvir minha vó contando como ela foi criada, sobre as
várias demonstrações de rejeição que teve, sobre a falta de diálogo com a
família, sobre a falta de carinho e afeto, sobre a necessidade quase que vital
de ser forte, independente das circunstâncias, sobre a consolidação do seu
casamento, sobre o perfil do meu avô, um homem arcaico e inflexível em suas
convicções, sobre a falta de informação sobre métodos contraceptivos, sobre o
seu papel enquanto trabalhadora na produtividade da família, enfim, sobre o
sofrimento de uma mulher em uma época muito mais machista e que, além disso, as
tecnologias eram rudimentares e o trabalho braçal era uma questão de
sobrevivência.
Ouvindo tudo isso, cheguei à conclusão de que aquela vida
sim era difícil. A minha vida é um sonho perto da dela. Com todos os conflitos
que eu tenho enquanto ser humano, ainda assim, sou capaz de desenvolver
potencialidades, sou capaz de adquirir conhecimento, tenho acesso a múltiplas
tecnologias que fazem com que eu substitua a necessidade de gastar muito tempo
com trabalho doméstico por outras formas de me engrandecer, sou capaz de
conhecer melhor meu próprio corpo e expressar melhor minhas emoções, minhas
idiossincrasias. Tenho inclusive a possibilidade de registrar ideias por meio
da escrita e compartilhar com uma rede infinita de pessoas. E esta afinidade
pela escrita devo também a minha avó, que por mais que tenha abandonado a
escola antes de completar o Ensino Fundamental, sempre gostou muito de escrever
em seus caderninhos com a sua caligrafia impecável, tendo orgulho em nos
mostrar as suas “produções”.
Utilizei a primeira pessoa do singular no parágrafo
anterior, mas sinto que a minha “voz” é semelhante a de milhares de jovens como
eu. E certamente há semelhanças em nossas histórias de vida e também em nossos
sonhos. E para sermos quem somos, nossos antepassados experimentaram um gosto
mais amargo da vida. E o que faltava para eles? Faltava formação humana,
conhecimento, expressividade, carinho, amor... faltava que as pessoas se
reconhecessem enquanto humanos e pudessem também reconhecer-se como humanos em
seus semelhantes.
E é engraçado que escrevendo isso sobre o passado, me vejo
escrevendo exatamente a mesma coisa sobre o nosso presente. Hoje falta formação
humana, falta conhecimento, expressividade, carinho, amor. Mas evoluímos, nós
temos muito mais do que nossos antepassados. Construímos muito mais, produzimos
muito mais. Mas o que de fato construímos? O que nos falta, então? Por que tudo
está tão perdido? Temos tecnologia, informação, conforto, temos mais educação, temos
até mais amor (?), mas somos vazios. Não nos reconhecemos no outro, porque sua
história de vida não nos interessa, não precisamos perder nosso tempo tentando
entender as pessoas que nos circundam, afinal, temos mais coisas a fazer. Pois
digo uma coisa, temos realmente muito a fazer. E tudo vai começar bem, se
formos capazes de levar em conta e respeitarmos as diversas histórias de vida
presentes nesse mundo, inclusive a história dos nossos avós.
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