segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sinais da idade

Esse final de semana me encontrei com minha amiga de fé, minha irmã camarada e, como não podia ser diferente, conversamos sobre os assuntos que nos cabem, refletimos juntas, fruímos um pouco de nostalgia e lamentamos sobre o que temos visto com mais frequência no espelho: sinais da idade. Comparamos nossas rugas, ela falou de uma marca específica que está adquirindo entre a boca e a bochecha e eu, distraída como quase sempre, sem pensar no significado desse meu consentimento, disse: “É verdade...!” Ela brigou comigo, claro. Não, eu não podia consentir com o fato de estarmos nos transformando. Eu tinha que dizer: “Imagina, você está com a mesma pele de quando tínhamos 15 anos!”. Eu ri e tentei desfazer a gafe, mas palavras ditas não voltam atrás. E então fiquei quase o dia todo pensando sobre isso.

E agora eu gostaria que ela entendesse que o meu consentimento não foi uma ofensa. Não existe significado mais bonito do que as rugas. Elas são a expressão mais forte da nossa personalidade, quando olho para essas novas companheiras no meu rosto, fico pensando por que elas estão surgindo em determinados locais específicos. E então, percebo que as marcas mais fortes representam justamente a forma como eu me expresso para o mundo, como trato as pessoas, como me concentro em tudo o que eu faço e penso ou ainda como encaro meus problemas.

Marcas entre a bochecha e o nariz, aquelas que fazem o contorno da boca e aquelas que ficam nos cantos laterais abaixo dos olhos representam as milhões de vezes que você dá risadas. As marcas na testa representam o quanto você dá atenção às pessoas com as quais conversa, a forma como você presta atenção naquilo que elas dizem ou a forma como você se expressa e se coloca enquanto expõe suas ideias às pessoas. As marcas verticais próximas à sobrancelha mostram o quanto você é capaz de se concentrar nas tarefas que se dispõe a fazer e quanto você está disposto a aprofundar o seu pensamento. Afinal, pensar profundamente sobre a vida, as coisas, as pessoas e o mundo faz doer a alma e essa dor se manifesta inclusive pela musculatura do rosto. Mas de repente, essa dor da alma se transforma em grandeza de espírito. E daí nascem as rugas.

Então, percebo que se tenho adquirido essas marcas, é porque a cada dia tenho mais vivência e, talvez, mais sabedoria nessa vida. Talvez porque é melhor desprezar a superficialidade dos pensamentos e mergulhar em suas profundezas, encarando todos os seus perigos. A cada dia sei dizer melhor o quanto é bom rir de tudo, o quanto é satisfatório ter uma boa conversa com alguém e poder me expressar com todos os músculos do rosto. Afinal, se eles estão todos aqui, precisam ser usados! Existir é um constante movimento: movimentar o rosto, o corpo todo, as coisas ao nosso redor, as pessoas que amamos e, sobretudo, a própria vida. Eu entendo, assim, que minhas rugas se constituem como a manifestação mais real e profunda da minha subjetividade, que tem sido construída através da minha história de vida, por meio das minhas relações com os outros e da sensibilidade com que eu enxergo a vida. E não há nada mais precioso do que isso.

Então, o que eu poderia dizer? Bem aventurados sejam os sinais da idade!



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