quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Desligar-se é preciso!


Nos últimos dias estive pensando bastante. Pensando sobre tudo: sobre a vida, as pessoas, as relações humanas, sobre mim mesma. E considero que todos esses pensamentos sempre me levam a um novo lugar que eu nunca estive antes. É um momento raro e precioso em que eu me desligo da minha rotina, do cotidiano acelerado e inclusive, de mim mesma. Eu pensei, refleti e me encontrei nesse novo lugar interno porque tenho o privilégio de parar para pensar, simplesmente porque estou fruindo do tempo livre de trabalho que me foi concedido: as minhas férias, ou “recesso”, como alguns gostam de chamar. Não viajei, não fiz programas super-hiper-mega incríveis, não fiz nada de extraordinário, mas pude pensar.

E dentre tantas reflexões, o que mais me incomodou foi perceber que algumas pessoas simplesmente nunca pensam. Não porque são incapazes ou não querem, mas porque elas nunca se desligam. Desligar-se é vital e orgânico. É preciso! Desligar-se acrescenta um sexto sentido à vida. Novas sensações corporais, emocionais, afetivas e sociais vêm à tona. E junto com essa erupção de novas sensações, eclode também uma explosão de dúvidas e incertezas que nos fazem questionar nossas próprias atitudes, nossas próprias escolhas, a forma como enxergamos o outro e o mundo. Isso desestabiliza, nos faz sofrer por algum instante, nos deparamos com emoções que não havíamos sentido. E sofremos, pode ser que choremos um pouco, mas isso é o nosso interior tentando sair da prisão que nós mesmos construímos ao longo da vida. E então, de repente, esse interior começa a sair pelos poros e finalmente nos encontramos com a liberdade.

Mas logo a frenética rotina volta com todo gás e mais uma vez voltamos para a prisão. E aí, a impressão que eu tenho é que aquele pequeno momento de “desligar-se” nos fez mais potentes para a vida, mais evoluídos, quem sabe. Mas, em vez de usarmos essa potência para explorar outros abismos ou desafios humanos, utilizamos toda essa força e vigor para voltar ao trabalho. Somos obrigados a produzir, produzir, produzir incansavelmente até chegar de novo esse momento tão sonhado de “desligar-se”. E quando ele chega, acontece tudo de novo, e então essas pequenas evoluções esporádicas tornam-se desconexas e a minha condição de mulher explorada e alienada acaba prevalecendo, apesar de tantas tentativas de me libertar.  
  
Até aqui, sou eu escrevendo tendo como referência a minha vida: a vida de alguém que trabalha em uma instituição em que existe esse negócio de férias, feriado, recesso e final de semana. Sou privilegiada. Agora quero escrever pensando em uma pessoa que não conhece nada disso, que há muitos anos não tira uns poucos dias para se “desligar”. Eis aqui o meu incômodo do segundo parágrafo: essas pessoas não se desligam nunca. Por não se desligarem, não têm esse momento de pensar de forma profunda sobre a vida, as coisas, as pessoas, o mundo e sobre si mesmas. Por não pensarem, continuam sempre seguindo a sua linha tênue, contínua e previsível de existência. E elas seguem com as mesmas atitudes, cometendo talvez os mesmos erros, com as mesmas limitações, com as mesmas sobrecargas emocionais. A evolução é apenas cronológica, quase nunca espiritual.

Não estou me referindo somente aos trabalhadores que têm apenas a sua força de trabalho para vender, aqueles que estão na base da pirâmide econômica, as classes menos privilegiadas. Estou falando também de micro e pequenos empresários, de estudantes de pós-graduação da classe média que não enxergam outra coisa além do mundo acadêmico, do professor que além da escola tem também mais trezentas obrigações no intuito de sustentar sua família. “Sustentar a família”... esse é o termo bonito e comovente que nos motiva e nos faz sonhar. “Vou lutar e trabalhar muito para sustentar a minha família”. Mas posso lhes dizer? Isso não passa de uma grande ilusão. Quanto mais o consumismo acelera, quanto mais “falsas necessidades de consumo” surgem, quanto mais luxo e ostentação são veiculados na mídia, mais difícil tem se tornado contemplar esse termo “sustentar a família”. Afinal, não estamos falando mais de colocar o essencial na mesa, o pão de cada dia, o arroz e o feijão. Estamos falando de ter que trabalhar para consumir, consumir e consumir. Para manter uma boa aparência, para pagar a melhor escola para os filhos, para viajar para o lugar mais badalado, para ter as melhores roupas, para frequentar os espaços de lazer mais caros. E quanto mais trabalhamos, mais inventamos firulas para o termo “sustentar a família”.

E então, o momento de lazer para essas pessoas que nunca se desligam se confunde com ganhar tempo, acelerar mais, correr, produzir. “Tempo é dinheiro!”, elas gritam no limbo de sua existência vazia. E de repente se olham no espelho e se deparam com o profissional exímio que sempre sonhou ser. “Sim, parabéns, você conseguiu!”, dizem bem baixinho para si mesmas. Mais um segundo, elas olham um pouco mais para esse espelho e se perguntam em que parte da vida deixaram para trás aquelas emoções tão gostosas de viver, onde ficaram as lágrimas de êxtase apenas por sentir a brisa da vida penetrar em sua alma. Elas simplesmente nunca se desligaram de si, tiveram medo do que podia transbordar do seu interior.

É por tudo isso que eu estou pensando agora: eu queria me desligar ainda mais, sei lá, talvez virar uma eremita, passar uns anos longe de tudo e de todos, me desligar inclusive de mim mesma. Em seguida voltar renovada em plenitude e amor. Mas sou fraca, quase hipócrita, afinal me submeto a quase tudo que critico. E assim sigo a vida, tentando me contentar com esses fragmentos de “desligar-me”. Hoje off, segunda-feira de volta às aulas... março, abril, maio e junho bem acelerada. Julho me desligo um pouquinho de novo e assim continuo nessa procissão desenfreada até chegar não sei quando a não sei aonde. Mas um dia hei de chegar. 

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