Ultimamente ando bem alheia aos problemas do mundo. Sei lá, escolhi fingir que não me importo por um tempo. A euforia e histeria das redes sociais estavam me contaminando e isso começou a me trazer angústia. De modo geral, homens e mulheres do mundo moderno não têm o costume de saber olhar, observar, ouvir, refletir. Tudo é espetáculo, é excesso. Parece não haver uma linha tênue e serena para encarar a vida. Todos falam, falam, falam e não escutam. Todos querem ter razão. E pensando com racionalidade, não existe razão. A razão é quase que particular, perpassa pela história de vida de cada um. Mas a história de vida de cada um é parte da história universal (de todos). E é aí que mora o problema. Ninguém olha para a universalidade, o coletivo, o todo. Afinal, o umbigo está bem mais perto dos olhos.
E hoje o que eu vou tentar dizer talvez já seja um sintoma de que eu estou voltando a me importar com os problemas do mundo. Afinal, o mundo também sou eu, é você, somos nós.
Quero falar de um vídeo que acabei de ver: ao som de uma música de funk com uma letra sinistra (sim, vou usar esse adjetivo), há um homem sentado em uma cadeira segurando um revólver e uma moça com um corpo bem feminino (muito bonito, por sinal) dançando em cima desse revólver, simulando uma cena de sexo. Esse vídeo me deixou atônita, estarrecida, estupefada, horrorizada, triste, muito triste.
Mulheres, amigas, companheiras, colegas, parceiras, irmãs... nós não precisamos nos vulgarizar para nos afirmar. Não. A menina do vídeo diria: “Meu corpo, minhas regras”. Sim, suas regras. Mas de onde partem essas regras? A partir de que princípios você tem construído suas regras? Quem direciona essas regras? Que tipo de liberdade você tem a partir desse tratamento que você dá ao seu corpo? O que esse corpo significa para você? Por quê esse shortinho tão curto? Por que essa sensualidade exacerbada e pública?
Seu corpo, suas regras. Eu entendi. Mas eu não sei se você já parou para refletir, o decote enorme mostrando um pedacinho das suas auréolas empobrece a sua aura enquanto ser humano. Você é mulher, você é linda, você é “novinha”, você é jovem e cheia de energia e muito amor para dar. Você tem uma história de vida e de luta, você tem uma mente para cultivar, você tem um potencial humano muito grande dentro de você. Então só me responda caso sinta-se à vontade: por que você está rebolando no revólver desse cara? Você sabe? Você tem noção do que está fazendo? Você entende por que o mundo faz isso com você? Você gosta de sentir seu corpo explorado dessa forma? Você acha que eles estão enxergando um pedacinho da mulher que existe dentro de você? Você sabe o quanto desconhece? Você sabe sobre seus direitos sociais?
Não, eu sei que você não vai responder. Você não sabe. Minha amiga, venha aqui, me dê um abraço. Você não sabe porque não lhe deram o direito de saber. Já foram te explorando antes de você entender o que estava acontecendo. Você gostou, eu sei. Você gosta de se sentir desejada, você gosta de se olhar no espelho e ver seu corpo provocante. É o poder que você tem nas mãos no contexto em que você vive. Você sabe que provoca os homens. Eles gostam.
Mas eles também não sabem porque eles gostam. Sabe o que mais? Eles não sabem nem porque lhe estupram ou porque lhe desrespeitam e lhe exploram. Será que é por que são homens e você é mulher? Não, claro que não. Ser absolutamente carnal e instintivo é uma característica dos animais, eles são homens. Ou deveriam ser. Eu não queria ter que lhe dizer isso, minha amiga, mas eles também não sabem o que estão fazendo porque o mundo também os explora. Este mundo, o mundo capitalista, o mundo da desigualdade social, da injustiça, esse mundo os deteriora e os regride à condição de animais. Eles não tiveram escola, não tiveram família, não tiveram formação, não desenvolveram princípios verdadeiramente humanos. E aí eles pegam um revólver e esfregam nos seus órgãos genitais. Dão risadas, se excitam. E você só rebola, passa a mão no cabelo e faz cara de safada. E aí semana que vem você vai engravidar de algum deles, ele vai te abandonar, ou quem sabe te bater muito ainda. E você vai chorar muito. Seu filho vai chorar. Suas próximas gerações vão chorar. A vida vai doer muito para vocês todos. Aquele homem que te engravidou também vai chorar, ou talvez morrerá naquela esquina fria e solitária com um tiro daquele mesmo revólver que esfregou em você.
E eu vou ler essa notícia na internet, ou talvez não leia, porque a notícia nem vai existir. Tem coisas mais importantes para serem notificadas: talvez as informações sobre o Zika vírus. E aí, minha amiga, eu vou lhe dizer: “Seu corpo, suas regras”.
Por isso, a você que está lendo este texto até aqui, eu digo: defendo com unhas e dentes a causa das mulheres, não apenas porque sou mulher. Eu poderia ser homem também, continuaria com essa convicção. O que eu não defendo é a apropriação de certos jargões que reproduzem, de certa forma, essa lógica exploratória e capitalista. Sou mulher, tenho dignidade, tenho o meu quê de sensualidade, mas nem por isso preciso aparecer seminua para me afirmar como mulher. Meu corpo é a minha preciosidade, é o meu reduto, a minha história. Portanto, ele me é particular. Faço o que eu quero com ele, mas ele é meu, só meu. E eu gostaria muito de poder conversar com essa moça do vídeo e dizer a ela que ela tem sim poder, que ela deve lutar por tudo aquilo que é seu. Que ela não deve aceitar um revólver esfregando em sua alma e tirando-lhe a sua dignidade. Que ela não deve se calar diante dessa violência.
Link do vídeo absurdo: https://www.facebook.com/FezinhoPatatyyPaginaOficial/videos/1035342179842447/?hc_location=ufi
Nenhum comentário:
Postar um comentário