quinta-feira, 21 de julho de 2016

Celebrar a diversidade

Hoje à tarde, ao acompanhar minha mãe e minha irmã em uma consulta médica dessas cotidianas, fiquei na recepção aguardando-as por um tempo. Esses ambientes e esses momentos aparentemente corriqueiros são propícios para despertar grandes reflexões sobre a vida, o mundo e as pessoas. Havia algumas crianças brincando pela sala com aquela felicidade que elas dominam com maestria. Então, comecei a observá-las para entender a brincadeira quando de repente me deparo com uma constatação: uma delas, um menininho de uns 2 anos de idade, tinha síndrome de down. Então, para mim, a cena deixou de ser corriqueira e a reflexão até então desenvolvida tomou outro rumo. 

O diálogo que as várias Naiás presentes em mim começaram a desenvolver foi um pouco conflitante e gerou um certo desgaste psicológico. Uma delas dizia que aquele sentimento de choque era puramente preconceito, outra dizia que não, “Você nunca tinha visto uma criança tão pequenina com síndrome de down”. Outra dizia: “Gente, mas qual o problema em ficar sensibilizada com isso? Você está achando que é preconceito?” Eis que a próxima interrompe a discussão, afirmando: “Eu já sei o motivo do choque: você está vendo a humanidade presente nessa criança, você está imaginando como a família a concebeu, quais as formas de amor ela recebe, como deve ser acompanhar o seu nascimento e o seu crescimento.”

Enquanto isso, o menino corria de um lado para o outro e brincava de esconder atrás do vidro transparente com outra criança tão pura e cujo coração deveria ser tão generoso que jamais pararia para pensar em tudo que essas várias Naiás pensaram. Ela fez aquilo que era instintivo: reconheceu o ser humano que havia naquele menininho e brincou, sorriu, se divertiu. Ela não sabia o que é ter “síndrome de down”. Ela simplesmente gostou do menino e queria compartilhar aquele pequeno gesto de carinho por meio de uma brincadeira. Do outro lado da sala estava a senhora que aparentemente deveria ser a avó do garotinho. Ela ficou o tempo todo ali e não deixou de cultivar a brincadeira das crianças em nenhum momento: ela sorria, estimulava, entrava no clima e demonstrava com ternura e transparência o quão inexorável era o seu amor por ele. 

Nesse clímax, eu e as minhas várias Naiás nos sentimos constrangidas. E nos emocionamos quando o garotinho se aproximou e a avó interviu pedindo para que ele mandasse um “beijo” para a moça. Ele mandou aquele beijo mais puro e inocente para a moça que era eu. E então fiquei profundamente feliz. Feliz por perceber o quanto essa pequena experiência me ensinou. Me ensinou que é extremamente natural um quê de perplexidade quando nos deparamos com algo novo e distante da nossa realidade. É também natural achar muitas coisas “estranhas” nessa vida. Porém, nós precisamos conviver com essas “estranhezas” assim como a actina precisa da miosina para que nossos músculos se contraiam, assim como o sódio e o potássio precisam estar em equilíbrio para que nossos impulsos nervosos sejam transmitidos, assim como as mitocôndrias precisam de oxigênio para produzir ATP e nos dar energia para viver. 

Isso significa que a necessidade de conviver e respeitar a diversidade é visceral: deve estar intrínseca em nós assim como nossas funções vitais mais primitivas. Precisamos conviver com um síndrome de down, com um cego, um tetraplégico, um atleta, um bêbado, um artista, um hippie, um esquizofrênico, um caipira, um punk, um maconheiro, um juiz de direito, um top model, um morador de rua, um psicopata, um detento, um político, um cineasta, um fisiculturista, um depressivo, uma lésbica, uma ninfomaníaca, uma freira, um gay, um haitiano, um médico, um mulçumano, um judeu, um esquimó... precisamos conhecer essas pessoas, quebrar estereótipos, respeitar, ouvir o que elas têm a dizer, abrir a mente para conhecer a sua história e enxergar o que há em comum entre todos nós: a nossa humanidade. 




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