Tem mais ou menos um ano que não
frequento mais a academia, não porque eu cansei de fazer exercício, mas porque
a rotina da minha vida mudou muito. Eu nunca fui assídua e estava longe de ser
fitness, mas eu ia à academia porque eu adorava sentir meus músculos vivos,
adorava a hipotensão pós exercício e aquela sensação de relaxamento. Às vezes
sinto falta da musculação, porque eu realmente me sentia mais forte. Mas quando
eu não pude mais frequentar a academia por ter que estar em 3 cidades
diferentes toda semana, tive a ideia de fazer exercício em casa ou fazer uma
corridinha de leve no parque. E eu tenho que dizer uma coisa, é COMPLETAMENTE
diferente!
Comecei a me sentir mais livre,
mais desprendida. Comecei a entender que o exercício deveria servir a mim e não
eu deveria servir ao exercício. Comecei a compreender que comparar o meu corpo
com o dos outros é tortura, é auto-destruição, é anular-se progressivamente em
prol de um padrão de corpo que não existe. Não existe porque a maioria dos
corpos com os quais eu me comparava já haviam sofrido alguma intervenção
cirúrgica, já não eram mais tão naturais, aquela beleza já não era fruto
exclusivo do exercício físico. Eu entendi então que eu estava me comparando com
algo ilusório.
Ser bonita é algo que todas as
mulheres desejam, não podemos negar. Mas a beleza plena é inalcançável, porque
quanto mais se busca, mais os padrões se elevam e nunca encontraremos a
sublimação. Eu gostaria muito de superar as minhas imperfeições e ser
milimetricamente moldada com a simetria de Leonardo da Vinci. Mas qual é o
sentido de existir para ser apenas contemplada? Precisamos mesmo é viver,
lutar, sofrer, aprender, superar, amar, se emocionar, fazer história e deixar
histórias. E eu, com todas as imperfeições marcadas no meu corpo, continuo
sendo apenas uma professora que tem tantos sonhos e tantas perspectivas na vida
e se eu fosse resumir os meus dias e as minhas energias em ser bonita, seria um
desperdício muito grande de energia, de espírito e de potência humana.
Então o que me resta? Me resta
buscar um equilíbrio, nunca desistir do exercício, sempre buscar meios de
sentir o meu corpo e sentir a vida pulsando no meu coração acelerado, na
adrenalina liberada e no suor derramado. Resta me olhar no espelho e ver o
reflexo da minha história em meu corpo, entender as marcas da minha etnia nas
minhas formas corporais, resta eu me sentir viva e saudável. Quando preservamos
nossa identidade e nosso espírito, nada mais importa. Eu ainda quero voltar
para a academia, já estou vislumbrando isso. Mas quando eu voltar, será de
outro jeito.

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