quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Meu corpo e a minha sinestesia, eis aqui o meu oráculo.

Meu corpo é um grande oráculo: me traz respostas de perguntas que eu sequer elaborei. E às vezes essas respostas vêm no formato de sinestesia e, então, os meus sentidos são todos convocados a sintetizar em minha consciência um presente com aconchego de um passado seguro e cheio de paz. Me refiro à chegada majestosa dessa chuvinha que penetra no meu corpo e invade meus sentidos. Então sinto o cheiro da tarde do Colégio das Irmãs, ouço longínquo o “cai chuvinha neste chão, cai chuvinha, vai molhando a plantação” que a tia Preta cantava para nós nos momentos de oração, ora pedindo, ora agradecendo. 

Sinto também aquela dorzinha do meu coração adolescente que tanto sofria e chorava calado nas noites de chuva solitárias e silenciosas. Vejo a imagem da hora do jantar, às 18:00, lá na roça, na casa da minha avó: aquele tanto de neto reunido com meia no pé, chinela de dedo e banho tomado, todos prontos para dormir. Sinto em toda a superfície de contato do meu corpo aquela brisa úmida que a chuva soprava para acalmar a correria e dizer: “se aquiete, me escute e me sinta! Sinta sua alma sendo lavada.” Sinto o cheiro do cafezinho e do arroz doce saindo do fogo, cheiro de pamonha e ouço o barulho da família reunida. 

Que sinestesia nostálgica! E que racionalidade autônoma eu sinto nesse instante: questiono dentro de mim tudo o que eu tenho feito, o que tenho buscado e o que eu tenho deixado de mim mesma. Que vontade de viver essas sensações novamente! Mas não é vontade saudosista, é vontade de transformação! Vontade de ser maior que todas as formas de controle que me aprisionam, esquecer o significado da palavra “prazo”, vontade de ver filme, ler Clarice Lispector, escrever descompromissadamente, ouvir a música que o instante delibera como agradável aos meus sentidos. Que vontade de não ter nenhum status profissional, nem acadêmico, nem civil, nem de nada! Vontade de ser eu, de ser humana, de ser “minha voz, meu corpo, meus sentidos e a chuva!” Vontade de ouvir e sentir as respostas desse meu oráculo. E pensar, refletir, compreender, transcender. Nada mais.  

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