Meu corpo é um grande oráculo: me
traz respostas de perguntas que eu sequer elaborei. E às vezes essas respostas
vêm no formato de sinestesia e, então, os meus sentidos são todos convocados a sintetizar
em minha consciência um presente com aconchego de um passado seguro e cheio de
paz. Me refiro à chegada majestosa dessa chuvinha que penetra no meu corpo e invade
meus sentidos. Então sinto o cheiro da tarde do Colégio das Irmãs, ouço
longínquo o “cai chuvinha neste chão, cai chuvinha, vai molhando a plantação”
que a tia Preta cantava para nós nos momentos de oração, ora pedindo, ora
agradecendo.
Sinto também aquela dorzinha do meu coração adolescente que tanto
sofria e chorava calado nas noites de chuva solitárias e silenciosas. Vejo a
imagem da hora do jantar, às 18:00, lá na roça, na casa da minha avó: aquele
tanto de neto reunido com meia no pé, chinela de dedo e banho tomado, todos
prontos para dormir. Sinto em toda a superfície de contato do meu corpo aquela
brisa úmida que a chuva soprava para acalmar a correria e dizer: “se aquiete,
me escute e me sinta! Sinta sua alma sendo lavada.” Sinto o cheiro do cafezinho
e do arroz doce saindo do fogo, cheiro de pamonha e ouço o barulho da família
reunida.
Que sinestesia nostálgica! E que racionalidade autônoma eu sinto nesse
instante: questiono dentro de mim tudo o que eu tenho feito, o que tenho
buscado e o que eu tenho deixado de mim mesma. Que vontade de viver essas
sensações novamente! Mas não é vontade saudosista, é vontade de transformação!
Vontade de ser maior que todas as formas de controle que me aprisionam,
esquecer o significado da palavra “prazo”, vontade de ver filme, ler Clarice Lispector,
escrever descompromissadamente, ouvir a música que o instante delibera como
agradável aos meus sentidos. Que vontade de não ter nenhum status profissional,
nem acadêmico, nem civil, nem de nada! Vontade de ser eu, de ser humana, de ser
“minha voz, meu corpo, meus sentidos e a chuva!” Vontade de ouvir e sentir as
respostas desse meu oráculo. E pensar, refletir, compreender, transcender. Nada
mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário