Não gosto de contaminar ninguém
com energias ruins ou pensamentos tristes. Mas de vez em quando é necessário
abrir os olhos para o escuro do mundo. Ultimamente, tenho percebido que todas
as pessoas ao meu redor estão carregando sempre uma dor de viver. Todos estão
exaustos de correr nessa maratona infinita em busca de um troféu que ninguém
nunca viu, só ouviu falar. E todos labutam, correm aqui, correm ali, se
esforçam, mais trabalho, mais carga horária, um bico de cá, outro de lá, "...vamos,
não pare, continue correndo! Força, força! Tome essa água, respire, continue,
não pare!" Eu vou junto e, de repente, olho para o lado e vejo o semblante de
desespero do meu colega. Olho para o outro lado, percebo que minha colega está pálida
e com os olhos marejados, não sei se vai conseguir chegar lá. Olho para trás,
tem milhões e milhões de colegas que ficaram próximos à linha de partida, mas
não param de correr, não é permitido. Eu olho pra frente e me lembro do “Teatro
dos Vampiros” e ouço longínqua a voz do Renato Russo: “Vamos sair, mas não
temos mais dinheiro, os meus amigos todos estão procurando emprego, voltamos a
viver como há dez anos atrás e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas.”
Dou razão a ele. Calculo em minha mente e descubro que em um dia envelhecemos
cinco anos. Em um ano, viveremos 1.825 anos. E em 49 anos de trabalho, como querem
ditar os financiadores dessa maratona louca, lá se vão 89.425 anos. E logo
percebo que, nessa lógica, Raul Seixas não estava maluco em dizer que nasceu há
10.000 anos atrás. Mas vejam bem, aceitemos viver dez mil, cinquenta mil, cem
mil anos e, ainda assim, continuaremos loucos, bilhões de zumbis correndo na
maratona sem fim. Estou com medo. Muito medo. Minha mente parece não ter fim,
mas o fim do meu corpo se aproxima a cada respiração. E respirar não tem sido
fácil nessa corrida, não deu tempo de me preparar muito bem. Meu “VO2máx”
está abaixo da média. Mas é uma maratona, não é época de treinar. “Acabaram suas
chances, minha amiga, vamos juntas, seja forte!”, ouço de uma colega que
acelera à minha frente. E então eu continuo correndo, também estou escrevendo
agora e... “NÃO PARE!”, ouço de longe! Tá bom, é só um parágrafo, já estou
terminando! Mas deixa eu pelo menos finalizar com uma poesia, deixa eu tentar
enfeitar essa imagem apocalíptica que estou vendo à minha frente. “Não perca
tempo com essas bobagens!”. Tudo bem, me deixe com as minhas bobagens, porque
elas revigoram os meus sais minerais perdidos nessa corrida. Calma, ainda tenho
forças para lembrar da poesia. Sim, quem escreveu foi o companheiro Carlos
Drummond. Aprendi com ele que é possível escrever durante a corrida. Não sei se
ganhou troféus, mas veja bem o que ele deixou: “Não serei o poeta de um mundo
caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus
companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças/ Entre eles,
considero a enorme realidade/ O presente é tão grande, não nos afastemos/ Não
nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” Ufa, terminei meu parágrafo! Desculpe,
sei que foi extenso, sei que você está com pressa para chegar também. Mas espere,
vamos de mãos dadas!
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