segunda-feira, 9 de abril de 2018

Não há nada absoluto, tudo voa e vai


“Quem lhe deu a verdade absoluta? Não há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move, tudo revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo). Foi essa a frase que li hoje logo no início do meu dia, enquanto tomava café. Estava escrita na biografia do meu instagram. Ainda à mesa, fui exercer essa atividade social moderna que foi impregnada em nossas subjetividades: se atualizar sobre a vida dos outros nas redes sociais. Que cultura péssima, que hábito deteriorante! Logo no início do dia... mas lá estava eu fazendo isso. Por um momento, entrei no meu próprio perfil para fazer aquela autoavaliação esporádica para ver se está tudo certo, se devo mudar alguma coisa, essas besteiras. E então li essa frase. E vi o link do meu blog. Senti saudades. Refleti um pouco mais sobre a frase e vim aqui escrever, mesmo que isso tire vários minutos que poderiam ser dedicados às tarefas acadêmicas que devo cumprir hoje. Que se danem essas tarefas! Estou cansada, muito cansada.

Preciso mesmo é resgatar as coisas que estão esquecidas dentro de mim, preciso parar para pensar nas minhas transformações internas, nas minhas revoluções mais íntimas. Se eu não fizer isso, vou me perdendo dentro de mim. Preciso parar para entender que não há verdade absoluta... tudo se transforma, voa e vai. Assim como eu mesma. Do jeito que Frida Kahlo disse um dia.

Quando vi o link do meu blog, resolvi clicar, fui descendo a barra de rolagem e analisando os títulos dos últimos textos. Cliquei em “pausa para falar um pouquinho da vida acadêmica”, li o texto na íntegra. Eu adoro ler as coisas que escrevo há um tempo, porque vejo que isso é um grande exercício de refletir sobre mim, sobre as coisas que eu tenho pensado nas diversas circunstâncias históricas da minha vida, talvez eu encontre alguma explicação para o que eu me tornei hoje. E a verdade é que eu sempre encontro mesmo. E eu acho que esse exercício responde bem ao clássico aforismo que os sábios gregos nos deixaram: “conhece-te a ti mesmo”. Sim! Conhece-te a ti mesmo! Não há nada mais precioso do que mergulhar em si mesmo para entender tudo que você é e tudo que você representa diante desse mundo.

Descobri que escrever é uma atividade terapêutica. Outro dia, assisti ao filme “beleza oculta”. O personagem representado por Will Smith escrevia cartas para as suas principais dores: o amor, o tempo e a morte. E nesse processo, ele ia compreendendo a dimensão desses três elementos em torno de sua própria vida e, paulatinamente, ia se curando. E foi uma narrativa tão linda, tão sensível, tão verdadeira! E então eu refleti muito sobre essa necessidade de simplesmente escrever. Pontuar os acontecimentos da nossa própria vida de tempos em tempos. Parar para registrar, para expressar, para sentir a sua própria vida pulsando em você e no papel (ou na tela). Isso é mágico, é inspirador!

E o que eu tenho para escrever hoje são coisas corriqueiras sobre o que eu tenho passado nos últimos tempos, sobre os grandes desafios aos quais a vida me tornou subserviente. Na verdade, nem sei se são tão grandes assim. Acho que ainda não chegou o meu limite. Cada um delimita o seu próprio limite. Os meus, ainda não conheço, porque tenho encarado esses desafios com a minha modesta bravura, sem ainda ter me sentido despedaçada ou desesperada. Então, de fato, não são os meus limites. Mas têm me causado dor, angústia e ansiedade. Isso não há como negar. Contudo, sigo lidando bem com esses sentimentos, pelo menos é o que me parece. Quando você se depara com histórias de vida verdadeiramente difíceis, você consegue notar o quão privilegiada é a sua história. E eu reconheço que sou privilegiada. Como sou! Por isso ainda não conheci os meus limites. Aliás, acho que no fundo tenho medo deles.

Pois bem, essa minha falta de limite não representa outra coisa senão uma evidência do meu privilégio: meu desafio é o estudo, a produção acadêmica. Só isso, meu Deus? Que desafio privilegiado você tem, Naiá. Pois é. Aos olhos de milhares de pessoas isso parece tão simples... talvez não seja. Mas tem me transformado, isso é o que importa. Já me transformei. Logo logo espero poder voar e ir, assim como a Frida Kahlo disse um dia. Voar para onde? Ir para onde? Também não sei, talvez mudar a minha história completamente de lugar, causar abalos sísmicos dentro de mim. Também não sei se quero isso, mas vamos aguardar.

Mas quais são essas transformações, afinal? Não sei, talvez o meu estresse tenha afetado um pouco a minha saúde. Desenvolvi uma tal de neurite vestibular. É um negócio que parece muito com labirintite. Um belo dia fiquei muito tonta, tudo girava ao meu redor. E eu fiquei com muito medo. Eu venero a minha saúde, morro de medo de adoecer um dia. Ahhh, descobri: acho que esse é o meu limite. Mas felizmente está tudo sob controle. Fui ao médico, estou agora tomando remédios por 60 dias. Odeio remédios. Nunca fui de tomar remédios. Mas tenho que tomar, não quero mais ficar tonta. Por tomar esses remédios, tive que me submeter a uma restrição alimentar, tenho tentado ser firme, mas o médico disse – entre tantas outras coisas – que eu tinha que parar de beber tanto café e que os remédios iriam me dar sono. Disse que eu tinha que evitar mais um monte de coisas, mas para mim, tudo bem. O problema era o café e o sono. Daí fiquei em crise, porque nessa altura do campeonato, tudo que eu menos posso é dormir demais. Preciso estar acordada para escrever, produzir. E sem as minhas 5, 6 xícaras de café ao longo do dia, ainda? Ah, isso é demais para mim. E tem também o colesterol alto. Não entendo. Ok, mas vamos peitar esse pequeno limite de cabeça erguida. E aqui estamos... já passei pela metade do tratamento. Mas engordei dois quilos. Isso está me deixando esquisita. Não gostei de jeito nenhum desses dois quilos a mais. Isso muda a informação que tenho sobre mim mesma, isso afeta o meu “conhece-te a ti mesmo”.

E para que relatar tudo isso? Simplesmente para dizer que uma pequena alteração na minha homeostase me causou muitas transformações... de transformações fisiológicas a transformações psicológicas. É isso, a nossa vida é uma totalidade em movimento. Não somos só corpo, só saúde, só amor, só dor. Circunstâncias históricas nos definem. Lembre-se: somos uma totalidade. E é isso o que eu tenho para dizer hoje: “Não há nada absoluto. Tudo se transforma, tudo se move, tudo revoluciona, tudo voa e vai” (Frida Kahlo).

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