quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Tudo passa, tudo passará.


É tempo de iniciar ciclos e aqui vou eu! Começarei arriscando retomar aquele tão prazeroso exercício de escrever que costumava me ocupar e preencher meu espírito por tantos anos da minha vida. Não sei se refleti o suficiente nesses últimos dias festivos, conforme ditam as regras ocidentais, mas pensei muito. Engraçado que, ao contrário do que acontece frequentemente quando me dou a pensar demais, neste momento sinto-me leve e plena.

Essa plenitude parece ser herdeira do meu recente entendimento de que tudo passa – e que bom que passa. Semana passada, conversando com a minha avó, que tem seus completos oitenta anos, falávamos sobre o tempo e quantidade de vida depositada nesse tempo. Partilhei com ela o meu sentimento confuso e estranho de já ter vivido trinta anos nesse mundo na intenção de ouvi-la dizer como tem sido viver oitenta anos.

Eu disse a ela que às vezes olho para trás e há tanto acúmulo, há tanta gente, tanta vida, tantas experiências, tantos acontecimentos! Já me vejo contando histórias mencionando um tempo correspondente a décadas. Tenho lembranças muito vívidas de dez, quinze, vinte anos atrás. Será até quando meu cérebro conseguirá multiplicar memórias? Em breve, esses trinta anos que já vivi serão dobrados em sessenta! Já carrego um peso tão grande de tantas experiências, que não sei se serei capaz de acumular o dobro de memórias, dramas, acontecimentos e pessoas em minha vida.

E quando eu mencionei o valor sessenta, me coloquei no lugar dela e disse: “E a senhora, vó, que já tem oitenta!? É muita vida vivida! Como a senhora consegue lidar com tantas memórias, com tanta gente que já passou na sua vida, com tantas coisas que a senhor já viveu?” Foi quando meu avô interrompeu discretamente, como absolutamente nunca faz, dizendo: “...mas a gente esquece de muita coisa”. Ao ouvir isso, parece que soou como um alívio para o meu coração, porque não há subjetividade que suporte essa progressão aritmética de cargas emocionais que vão sendo geradas a cada experiência de vida. E me aliviei um pouco mais quando entendi que se a gente se esquece, é porque as memórias vão se fundindo ou se sobrepondo umas em relação às outras. Significa que muita coisa deixou de ser importante porque nos trouxe aquilo que precisava trazer e passou, acabou. Ufa, que bom que é assim!

E prosseguimos a conversa falando sobre pessoas. Quanta gente passou pela nossa vida e se foi! Gente que achávamos que permaneceria para sempre, gente que muito nos ensinou mas que simplesmente passou. E mais uma vez, que bom que é assim! E eu comentei com eles sobre as várias fases da minha vida e os diversos círculos de amizade e afeto que já protagonizaram aquele determinado presente e que hoje se tornaram apenas lembranças. Pensei inclusive nas últimas pessoas importantes que estão sendo levadas reciprocamente pelas circunstâncias históricas de nossas vidas. E que bom que é assim!

Depois de uma semana dessa conversa, hoje tive um momento catártico. Não temos força o suficiente para manter tudo o que passa pela nossa vida. Somos históricos. Jamais conseguiríamos guardar o mesmo afeto por todas as pessoas que foram importantes em nossa história, porque isso nos sufocaria e nos mataria. Mas absolutamente todas as pessoas que protagonizaram nossas relações nos ensinaram muito sobre a vida. E é exatamente por isso que precisamos assumir sempre o compromisso humano de exercer a lealdade, o respeito, a honestidade, a justiça e a gratidão pelas pessoas que compartilham parte de sua história conosco.

E então acho que me senti bem com o acúmulo dos meus trinta anos e estou disposta a lutar para viver oitenta anos ou até mais, assim como a minha avó. E sinto-me estimulada a viver a intensidade das relações que pulsam no presente momento! E que eu seja sempre inteira em tudo que sou e vivo com as outras pessoas, porque elas passarão, tudo o que vivemos passará, eu passarei, nós passaremos. E o que fica é certamente o produto da maior e mais complexa equação matemática dos anos vividos, que corresponde à peculiar capacidade psíquica que cada um de nós desenvolve para transformar tudo o que vive em potência humana!

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