quinta-feira, 13 de maio de 2010

O que é Diversidade Humana?

Para quem usufrui de uma boa dose de paciência e interesse, o texto a seguir é uma indicação legal para entender vários aspectos dessa sociedade frenética que fomos escolhidos a participar. Aproveitando o fato de hoje comemorarmos a abolição da escravatura, nada melhor do que tentar compreender a Diversidade Humana. Trata-se de uma avaliação que tive nesse semestre e preciso tentar reformular algumas idéias. Assim, trago-a aqui, com o objetivo de suscitar opiniões externas, de pessoas que estejam fora do mundo da Educação Física.


Estabelecer um conceito sólido e consistente para o termo Diversidade Humana requer um trabalho de abstração ínfimo, que percorra as barreiras do inalcançável e que, entretanto, retorne à realidade concreta por meio de diálogos entre vários outros conceitos instituídos por diversos autores.

A princípio, deve-se entender o homem em sua existência mais primitiva: a biológica. Ao nascer, o ser humano é essencialmente biológico e este constitui o fator que mais aproxima a espécie humana de uma mesma realidade. Ao nascer, somos todos aparentemente iguais. Salvo algumas exceções, todos temos a mesma capacidade de gozar dos processos de desenvolvimento motor e cognitivo. A partir do momento em que passamos a ser interceptados pela existência de outro homem junto à nossa (quando começamos a produzir e a receber cultura) é que encontramos o início da Diversidade Humana.

Durante o processo evolutivo, vale destacar uma aquisição humana fundamental para o desenvolvimento do cérebro, que confere a diferença tão perceptível entre o homem e os demais animais: a simetria bilateral. Compreende-se, assim, que esta aquisição possibilitou ao homem o desenvolvimento da motricidade, sem a qual jamais poderia-se adquirir a capacidade cognitiva. Então, a simetria bilateral nos levou à motricidade, que por sua vez, determinando um maior amadurecimento do cérebro, concedeu-nos o desenvolvimento cognitivo (a inteligência humana). Agora, entende-se o homem como um ser biologicamente completo, digno de usufruir de um sistema integrado de funções e capacidades antes inimagináveis por quaisquer seres vivos existentes. Logo, por meio da continuidade evolutiva, o homem transforma-se nesta estrutura tão complexa, diversificada e enigmática: o homem moderno.

E é exatamente na modernidade que a Diversidade Humana encontra uma infinitude de caminhos a serem percorridos, sendo permeada por encruzilhadas de conflitos, transformações, distorções, desafios, distanciando-se cada vez mais de um conceito sólido que a defina, chegando a correr o risco de perder seu significado mais superficial e objetivo: aquilo que é diverso, diferente, múltiplo, variado. O atual período histórico fez com que houvesse muito mais complexidade dentro da Diversidade Humana do que essas simples definições tentam esclarecer.

A modernidade, assim, surge a partir do processo civilizatório, que por sua vez, tem o papel de instituir um sistema organizacional em sociedade, fazendo com que o homem se submeta a normas, regras, convenções e leis para legitimar a sua permanência no mundo social; ele precisa ser domesticado, instruído, adaptado ao meio, padronizado. A pedagogização caminha junto a este processo, pois o homem deve ser ensinado a viver. E assim, quase que de forma paradoxal,

se levarmos em conta a historicidade do homem, o homem como autor e protagonista de sua própria história, a história de sua humanização, a modernidade só é possível como momento contraditório dessa humanização (MARTINS, 2000, p. 18).

Este é um momento contraditório porque na medida em que o homem evolui no âmbito tecnológico, em aspectos relacionados aos insumos necessários para a manutenção da vida, por outro lado, ele acaba regredindo em suas características humanas: o contato pessoal, a produção de idéias, a capacidade de abstração, a capacidade de reconhecer-se no outro e criar vínculos, valores, princípios. Todos estes fatores acabam diluindo-se à favor deste processo de modernidade, à favor da globalização e do processo capitalista.

Neste cenário de constante “evolução”, o homem encontra meios cada vez mais eficazes, (mesmo que injustos) de afirmar a sua condição humana, de exigir os seus direitos. A Revolução Francesa é o melhor exemplo capaz de ilustrar essa conquista do homem. No entanto, trata-se de uma conquista forjada, já que os princípios de igualdade, fraternidade e liberdade, quando proclamados, só contribuíram para o distanciamento social, fazendo com que a idéia de individualidade tivesse um alcance de unanimidade indiscutível. E hoje, esta idéia é justificada pela busca incessante à felicidade e ao prazer. Conta-se, assim, com humanos cada vez mais individualizados, coisificados, sujeitos ao distanciamento de usufruírem (da) e exercerem a Diversidade Humana.

Neste contexto em que o individualismo torna-se protagonista e a procura pelos interesses pessoais é constante, encontra-se a lógica da sedução, “uma lógica que segue seu caminho, que não poupa mais nada e que, assim fazendo, cria uma socialização suave e tolerante, dedicada a personalizar-psicologizar o indivíduo”. Diante da procura pela felicidade e do discurso hedonista, o homem seduz e é seduzido incessantemente, pois ele precisa se sentir pertencente e se afirmar em um grupo. Assim, a condição humana vai se deteriorando, pois o homem é um ser “livre”, possui direito de se expressar incondicionalmente, mesmo que para isso, necessite ultrapassar a barreira do respeito pelo outro. Encontramos, diante do exposto, adultos cada vez mais infantilizados, já que necessitam buscar meios de sedução que não condizem com o seu nível de maturidade, cometendo atitudes inapropriadas, utilizando-se de estratégias inconvenientes de sedução (LIPOVETSKY, 2005 p. 5).

Entende-se, então, que o homem perdeu a capacidade de se reconhecer no outro, pois nesta sociedade moderna, de consumo, semi-desprovida de valores humanos, o outro é sempre a imagem do estranho, é aquele que não possui os mesmos direitos e deveres, aquele que incomoda. O primordial não é o outro, e sim os interesses individuais. Se o outro incomoda e é estranho, acaba se tornando louco. O nível de loucura encontra proporções cada vez maiores à medida que este “outro” ocupa as camadas sociais mais inferiores, eminentemente estando à mercê dos desígnios médicos, pois a loucura será diagnosticada como anomalia e um indivíduo assim deve obter o tratamento específico e adequado para que não volte a “incomodar” a sociedade. E neste sentido, o precipício da Diversidade Humana vai sendo progressivamente constituído.

Mais do que amenizar os inconvenientes causados pelo “outro”, a medicina se afirma como forma de disciplinarizar corpos: desenvolver homens resistentes, entrar no seio familiar e impor determinações, disseminar conhecimentos sobre higiene, manter os princípios “éticos”, moralizar, amedrontar e educar a sociedade. A medicina encontra, neste percurso, uma aliada de grande reconhecimento e significado social: a escola. A educação escolar passa a ser consubstanciada pela medicina, pois adquire o papel de adequar seres humanos ao sistema, em vez de promover rupturas com a realidade social. Assim, a arquitetura da escola se transforma, as normas institucionais encontram mudanças. No entanto, à medida que evolui, aproxima-se cada vez mais da lógica de sedução:

A educação, antes autoritária, tornou-se altamente permissiva, atenta aos desejos das crianças e dos adolescentes enquanto, por toda a parte, a onda hedonista elimina a culpa do tempo livre e encoraja a nossa entrega a ele sem entraves e o aumento da quantidade de lazeres (LIPOVETSKY, 2005 p. 5).

Esse caráter hedonista, em que tudo é válido para alcançar os objetivos e desejos pessoais, remete à reflexão sobre a constante banalização a que o homem submete-se a todo o momento. Quaisquer atrocidades tornam-se comuns: crimes, drogas, violência, racismo, sexualidade precoce, tudo se torna cotidiano e normal. O homem começa a perder a capacidade de se indignar com o mundo, porque nada além do seu âmbito individual interessa. E a escola vai afrouxando cada vez mais os laços que prendem o ser humano aos valores morais, sociais, coletivos. As instituições começam a entrar em decadência (a Família, a Igreja, o Estado).

Nesse sentido, em meio à realidade conturbada, permeada pela constante banalização e ainda pela necessidade de impor disciplina aos corpos, origina-se o chamado biopoder. Esse novo poder, discutido por Focault, surge na segunda metade do século XVIII e possui o papel de disciplinarizar a vida, e a sua tecnologia passa a atuar numa perspectiva coletiva, massificada:

Se o poder disciplinar é uma tecnologia centrada no corpo e, portanto, um mecanismo de individualização, o biopoder aparece como uma tecnologia exercida sobre a vida, sobre a espécie e não sobre o indivíduo, constituindo-se num mecanismo de massificação (Souza e Gallo, 2002).

Partindo deste princípio, cria-se a noção de que qualquer resolução de determinado problema social deve partir de um âmbito coletivo; os problemas só existem devido à desorganização da sociedade, e não à (falta de) participação de cada integrante da mesma. É exatamente essa percepção que o chamado biopoder tenta consolidar, fazendo com que ninguém se sinta responsável por nada, é como se todas as barreiras fossem problemas sociais, e que no âmbito individual político, o ser humano está impotente. Assim, todos estão fadados simplesmente a morrer, como única alternativa para resolucionar quaisquer problemas que ameacem a estabilidade da vida. Enquanto o poder soberano (que encara o poder como forma de opressão) se ocupava em “fazer morrer” ou “deixar viver”, esse novo mecanismo de poder vai se ocupar de “fazer viver” e “deixar morrer” (Souza e Gallo, 2002).

Instituído este novo poder, e partindo da análise do “deixar morrer”, o Estado justifica o seu direito de matar, consubstanciando-se na afirmação da própria vida: todo aquele que é diferente, menos dotado ou menos capaz constitui um atraso para a evolução, e eliminá-lo é o mesmo que purificar a raça, melhorar a população como um todo. E aqui, volta-se à análise do outro: o homem não se reconhece no outro, mesmo que uma parte de si esteja inserida neste outro. Entende-se assim, que se deve seguir os princípios do racismo para continuar sendo inserido na sociedade. Segundo Focault (apud Souza e Gallo, 2002), o racismo tem como primeira função, fragmentar, dividir, separar uma sociedade; em seguida, ele dissemina o ódio; por último, garante o extermínio da raça inferior.

Aqui, encontra-se a Diversidade Humana de uma forma contraditória. Ao mesmo tempo em que o homem evolui socialmente, criando condições de existência que esboçam sentido à vida, criando normas, direitos, instituições e toda a gama de relações sociais, ele também cria vínculos inexoráveis à existência biológica, encarando as suas diferenças físicas de forma contundente, incisiva. Assim, a diversidade biológica é o que parece determinar as relações sociais, e não a Diversidade Humana como um todo.

Agora, diante de todos os acontecimentos históricos, diante da (pseudo) evolução humana, diante dos conceitos até então apresentados, inicia-se o momento de tentar estabelecer o significado de Diversidade Humana. Aqui abro mão de todos os pronomes impessoais e ouso assumir a responsabilidade, como acadêmica do 6º período de Educação Física, de conceituar este termo.

Entendo a Diversidade Humana como o palco da existência, permeado por um cenário cheio de conflitos, contradições e incertezas. Este palco tem como protagonista o homem, que atua de forma a imprimir todas as suas marcas humanas, suas idiossincrasias, seus problemas, seus conceitos e preconceitos, sua história, suas aflições e angústias. E a Diversidade Humana evolui assim como o homem evolui (ou regride). E é essa diversidade que estabelece as relações sociais, sejam elas enriquecedoras ou distorcidas. E é ela que institui o livre arbítrio humano. Então, se toda a realidade apresentada no decorrer deste trabalho nos assusta ou indigna, significa que estamos distorcendo, denegrindo, destruindo e forjando a nossa Diversidade Humana.

Somos seres biologicamente aptos às mesmas possibilidades, salvo algumas exceções. No entanto, não conseguimos compreender e aceitar as nossas diferenças culturais, muitas vezes justificando esta intolerância por meio das sutis diferenças biológicas. Não entendemos a nossa diversidade como forma de enriquecimento humano, não respeitamos as alteridades e diferenças presentes em sociedade. Não nos reconhecemos no outro, que, paradoxalmente, nos é tão próximo. Acostumamos-nos a encarar o mundo de forma não-familiar. Não entendemos que, independente de cor, forma física ou classe social, todos possuímos uma subjetividade ímpar e, assim, tudo acaba destituindo aquilo que consolida a nossa existência.

Diante de tantas perdas humanas e diante da consciência que temos sobre essa realidade tão assustadora, passamos a nos conformar com o discurso niilista de que não há soluções para essa sociedade deteriorada por uma história que não se pode reverter. No entanto, é imprescindível que não nos rendamos a esse discurso e tentemos acreditar na existência humana, que procuremos enxergar uma válvula de escape que, caso não consiga liberar a passagem para a esperança, que seja capaz ao menos de amenizar tudo aquilo que nos torna seres cada vez mais distantes da condição humana. Enfim, que tentemos compreender e respeitar a nossa Diversidade Humana.







Referências Bibliográficas:



FONSECA, Vitor da. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes médicas. 1998.



BOTO, Carlota. A escola do homem novo: entre o iluminismo e a Revolução Francesa. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1996.



MARTINS, José de Souza. (2000), As hesitações do moderno e as contradições da modernidade no Brasil. In A sociabilidade do homem simples – cotidiano e história na modernidade anômala. Ed. Hucitec, São Paulo, pp. 17-54.



GARCIA, Ramon. A propósito do outro: a loucura. In: LARROSA, Jorge; DE LARA, Nuria Perez. Imagens do outro. Trad.: TEIXEIRA, Celso Márcio. Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998. p. 24-46.



LIPOVETSKY, Gilles. A sedução não pára. In: A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução: DEUTSCH, Therezinha Monteiro. Editora Manole, Barueri, SP, 2005.



FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Ed. Imago, Rio de Janeiro (RJ), 1996.



NUNES, Clarice. (Des)encantos da modernidade pedagógica. In: LOPES, Eliane Marta Teixeira; FARIA FILHO, Luciano Mendes; VEIGA, Cynthia Greive. 500 anos de educação no Brasil. 3º ed. Editora Autêntica. Belo Horizonte, MG, 2007. p.371-398.



GONDRA, José G. Medicina, higiene e educação escolar. In: LOPES, Eliane Marta Teixeira; FARIA FILHO, Luciano Mendes; VEIGA, Cynthia Greive. 500 anos de educação no Brasil. 3º ed. Editora Autêntica. Belo Horizonte, MG, 2007. p. 519-550.



SOUZA, Regina Maria de; GALLO, Silvio. Por que matamos o barbeiro? Reflexões preliminares sobre a paradoxal exclusão do outro. Educação & Sociedade, ano XXIII, nº 79. Campinas, SP, Agosto/2002.




Naiá Márjore Marrone Alves.
Universidade Estadual de Goiás.
Goiânia - 2010

4 comentários:

  1. naiá , eu gostei bastante do texto , não sei o que eu tiraria ai não , lembro que ele pediu pra reduzir ,então vai lendo paragrafo por paragrafo pra ver se tem alguma ideia repetida , só não gostei do ultimo paragrafo la de não se render ao niilismo , pq eu acho que o niilismo só fala a realidade, e querer ir contra é bobagem, mas isso já é pessoal né

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  2. Muito legal o teu blog! Interessante ! Se puder me visite, http://sindromemm.blogspot.com

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  3. Achei ótimo o seu texto.
    Já pensou em tentar publicá-lo em alguma revista científica?
    Seria interessante a discussão.
    Um grande beijo.
    Nathalia B.

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  4. exelente textoo, qndo li pensei putz, eu nao escrevo é nada! rsrs, bjoo :D

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