sexta-feira, 2 de julho de 2010

02 de julho alaranjado

Vou fazer um teste. Acho que nunca escrevi ouvindo música. Aprendi em uma disciplina da faculdade que essa história de que conseguimos fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo não existe, ou focamos nossa atenção em uma ou em outra. Não sei se isso vai funcionar com O Rappa.

Mas o que eu quero dizer é simples, não vou me esforçar para enfeitar as palavras. Quero manifestar a minha indignação de patriota que sou (neste momento). [pausa] O teste funcionou. Provei a mim mesma que não consigo escrever com a mesma facilidade quando estou ouvindo música [continuando]. Digo neste momento, porque estou tentando me lembrar qual a outra ocasião em que o meu coração dispara por causa do meu país. Respondo instantaneamente, sem rodeios: NENHUM. E ainda me pergunto: será que esse disparo cardíaco é por causa do meu país?

E eu vibro, estalo meus dedos, levanto do sofá, converso com os jogadores, bato com toda a força que eu tenho uma palma da minha mão na outra, balanço minhas pernas e pés. Enfim, torço, espero, acredito. E agora, depois que já passou, eu me pergunto: Por quê, por quem, para quem? Pelo meu país? Não, não é pelo meu país.

Por que ainda continuo indignada pela derrota? Qual o grande sentido de ganharmos mais uma estrela em nossa camisa? Legitimar e manter ainda mais a cultura de que somos o país do futebol? Por que é tão bom sermos os favoritos? E eu, sinceramente, queria poder responder tudo isso de forma precisa e clara. O que eu sei é que o conta-gotas do futebol deixou cair uma gotícula em mim assim que nasci e de lá para cá sou e estou completamente contaminada por essa paixão que aparece de 4 em 4 anos. 

Agora, uma coisa que me incomoda é o seguinte: Por que não mantemos essa mesma união, tão pura, tão verdadeira, para defender causas sociais mais importantes no Brasil? Por que não utilizamos esse espírito patriota para escolher um representante verdadeiramente honesto? Por que não utilizamos esse espírito para lutarmos por justiça?

Não adianta... enquanto formos hegemônicos no futebol, manteremos essa paixão bonita, pura e contagiante. E agora que acabou, vamos voltar à nossa rotina, vamos voltar a assistir a globo sem copa, sentados e acomodados no sofá vendo Faustão e vamos acabar percebendo que não fez diferença. Nada faz diferença, até que atinja a conta bancária ou a integridade física ou moral. Enfim, apenas teremos na memória um 02 de julho alaranjado. No more.

2 comentários:

  1. "o conta-gotas do futebol deixou cair uma gotícula em mim assim que nasci e de lá para cá sou e estou completamente contaminada por essa paixão que aparece de 4 em 4 anos".

    Estou imerso acerca de 12 anos nessa loucura denominada de futebol apenas como um mero torcedor. Futebol aliena? Concordo, mas não tenho condições de entrar nesse mérito ao ponto de discutir o que aliena mais ou o que aliena menos o cidadão.
    Quando vejo um jogo ao vivo, eu quero ser apenas torcedor: poder gritar, xingar, vibrar e cantar incentivando meu time a vitória.Naqueles 90min meu time é a razão maior de estar ali na arquibancada, e mesmo sabendo que pode acontecer derrotas, tristezas e frustrações ainda sim pago meu ingresso feliz. Só o futebol consegue tal façanha.
    Mas tenho plena convicção de que as minhas atitudes enquanto estudante universitário e futuro professor de Educação Fisica,são demonstradas fora desse ambiente futebolistico ao passo que consigo separar as situações e ter uma opinião formada com relação ao futebol de forma critica. Será que isso me aliena ainda mais?.

    Continue escrevendo Naiá!!!
    Parabéns pelo texto. Sempre que der eu passerei por aqui e darei minha humilde opnião.

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  2. Naiá, esse é um sentimento que não tem nada a ver com patriotismo. Uma das coisas que a gente vive buscando é a sensação de fazer parte de algo maior que nós mesmos, algo que tem algum sentido, mesmo que no fundo seja um sentido fútil ou falso.
    É uma das coisas que nos motiva a estudar: nosso curso tem um significado, vamos contribuir pra isso. Nos motiva a nos engajar politicamente: justiça e igualdade mexem com a gente.
    Mas veja bem, não é racional! Apesar de todo o sentido lógico e correto que você possa extrair, não é seu cérebro que realmente te empurra, é aquela sensação boa de fazer parte de algo certo.
    Quando estamos assistindo o jogo do Brasil, sabendo que todos estão vendo, torcendo pra que "nós" sejamos os melhores, é a sensação do "algo maior" que nos carrega.
    Isso é Bom? É Ruim? Aí é discussão pro seu post sobre emoção e razão, né.
    bjo

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