Hoje o dia surgiu diferente, propício para construir algo também diferente. Começo tentando por aqui, buscando parceria com o tempo chuvoso, ameno e agradável, que há muito não visitava Goiânia. Me inspiro também no 15 de outubro, data esquecida pelos que estão aquém ou além do mundo da educação. O que tenho a dizer é breve e triste; penso melhor não atribuir esse adjetivo, já que nas primeiras palavras anunciei uma postagem agradável e amena como o tempo.
Quero mostrar por meio da visibilidade abstrata das palavras uma cena verídica presenciada e sentida por mim há algumas semanas. O cenário é uma das maiores escolas públicas de Goiânia. A protagonista é uma garota de 10 anos. O clímax é conturbado como qualquer sala de aula brasileira de 3º ano do Ensino Fundamental. A história é simples: estudávamos um texto cujo tema trata-se de Educação Física e Sociedade. Foi atribuída aos alunos a tarefa de escrever, a partir da leitura e discussão feita em sala de aula, tudo o que pensavam sobre o tema. Lançada a proposta, vem até mim uma aluna, visivelmente meiga e delicada, com uma voz quase inaudível, me chama à carteira e me diz: Professora, eu não sei ler! Momentaneamente me veio uma reação estática, aquelas em que você conversa consigo mesmo, pede uma iluminação divina por alguns segundos e arrisca uma ou outra palavra. E eu arrisquei essa interrogação: Como assim? Você não sabe ler? Eu teria perdoado-a se ela me respondesse: Você é surda professora? Felizmente, ela foi mais sensata e só confirmou o que eu já sabia.
Em meio à transitoriedade da dúvida e da insegurança, pedi a ela que me mostrasse o seu caderno. Ao mostrar, me surpreendi com a organização e a estética da letra: ambos os aspectos totalmente positivos. Perguntei então como ela havia conseguido copiar e ela não soube me explicar. Percebi que talvez ela compreendesse apenas tudo o que estivesse escrito com letras corsivas, já que o texto estava digitado. Propus então que ela tentasse ler uma frase que eu mesma escrevi à lápis em seu caderno. Seu semblante se abriu ao perceber que o esforço não seria tão grande como ler um texto digitado. Ela tentou, leu uma vogal e na próxima palavra confundiu-se toda. Pedi que ela não desistisse, que continuasse tentando. Para conferir maior comodidade a ela, preferi deixá-la sozinha. Continuei observando-a de longe e com uma obediência invejável, continuou tentando até que eu voltasse em sua carteira.
Ela não sabe ler. Ela não sabe ler. Esse pensamento martelou minha cabeça por muito tempo, e continua até agora. Estou indignada com a fragilidade do sistema escolar e vejo que a realidade tem gosto de fel. Um gosto tão amargo que me dá ojeriza. Não sei o que fazer, não sei nem a direção a tomar, ainda menos sei sobre o caminho a seguir. O que sei é que ser professor no Brasil é muito fácil, qualquer um consegue. Qualquer um sabe entrar em uma sala de aula, preencher o quadro negro com uma mistura incompreensível aos alunos, sentar-se e lixar as unhas. No entanto, exercer o verdadeiro papel de professor não é fácil. Ensinar não é fácil, romper com o que está posto não é fácil. Transformar a vida de alguém não é fácil. O que me resta é buscar entender o porquê de não ser uma tarefa fácil. E eu sei de várias respostas, mas não vou expô-las aqui e agora. São comprometedoras e podem induzir a um ceticismo completo. Ainda assim, parabenizo todos aqueles que sabem exercer o verdadeiro papel do professor.
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ResponderExcluirApesar de ser uma das terríveis realidades do ensino brasileiro, é muito bom perceber que com um pouco de incentivo as crianças conseguem. Tenho certeza de que você ajudou a essa garota, e que ela lhe será sempre grata. O coração das crianças é muito puro.
ResponderExcluirMesmo com esse sistema sujo e injusto, ainda existem pessoas que o querem mudar. Ou pelo menos transformar.
Beijo Naiá.
Vejo gente saindo do ensino médio sem saber interpretar um texto satisfatoriamente. A única explicação que vejo é o despreparo e o descaso de "professores" da escola pública, como os que sua aluna já deve ter tido. Sorte dela encontrar você no caminho.
ResponderExcluirO pior é ver as eleições passando e não aparecer ninguém com peito (ou cabeça) pra falar que vai fazer uma reforma profunda, de longo prazo, no ensino. Triste mesmo.
Fico maravilhado lendo um texto desse, e ao mesmo tempo triste de perceber como anda a nossa educação pública. Infelizmente existem professores despreparados, que não exercem seus cargos de maneira competente, deixando e criando jovens mal preparados para uma boa educação. Esse despreparo quanto a educação infelizmente refletirá no futuro brasileiro, que é uma pena!
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