quarta-feira, 18 de março de 2015

Menos novela, mais formação humana!

Hoje, durante uma das aulas de natação, eu estava explicando o próximo exercício que os alunos deveriam fazer. De repente, sem nenhum tipo de relação com a aula, um deles, que tem apenas 7 anos de idade, me disse:

- Ai, tia, tô com saudade do Império.

Eu fiquei sem entender, perguntei: 

- Como? Que império?

Ele, como quem tinha propriedade no que estava dizendo, enfatizou:

- A novela Império, tia! Eu gostava tanto de assistir, agora acabou!

E eu, como não poderia deixar passar em branco, disse:

- Você assistia? Nem eu assistia, você acha que criança deve ver esses programas?

E assim a conversa seguiu mais alguns minutos e ele trouxe outra informação:

- Mas agora começou Babilônia. Eu também assisti, TEM UMAS CENAS MUITO FORTES (grifos meus).

Eu não sei se consegui disfarçar a expressão de perplexidade que fiz por dentro. No momento, fiquei sem atitude. Como uma criança de 7 anos reproduz um tipo de fala dessas? 

E então tudo isso me fez pensar um pouco e acabei estabelecendo algumas relações com os acontecimentos tão recorrentes nos últimos dias. A sociedade que está indignada com a corrupção espalhada pelo nosso país é a mesma sociedade que permite que um garoto de 7 anos tenha acesso a esse tipo de conhecimento midiático. Sim, é inegável que nós, seres humanos, sejamos contraditórios. Estamos tangenciados pela incoerência. Temos atitudes incoerentes com as ideologias que acreditamos seguir, temos comportamentos incoerentes diante de situações cotidianas. Ter a possiblidade de buscar romper com essas contradições é o que nos diferencia dos animais, nos dando o título de “humanos”.

Então, se na nossa base educacional, que é a Família, permitimos que as crianças sejam formadas a partir desse tipo de valor pregado pela TV Globo, que tipo de adultos teremos? Homens e mulheres repletos de virtudes, valores e princípios?  Homens e mulheres justos? Não, teremos homens e mulheres corrompidos, ou talvez, em outras palavras, corruptos. E alguns desses homens e mulheres, futuramente, estarão representando a voz de mais outros milhões de homens e mulheres, serão responsáveis por delinear o caminho de toda uma sociedade. 

Quando eu tinha uns 12 anos, minha mãe me pedia para ensiná-la algumas coisas sobre informática. Como pré-adolescente que eu era, perdia fácil a paciência e ela me dizia sempre: “Minha filha, você precisa entender que a sua mente é como se fosse uma grande construção. Imagine que estão colocados os alicerces, e então os operários estão começando a colocar os primeiros tijolos, ainda não tem quase nada pronto ali. Então, para você, qualquer coisa nova que surgir será bem vinda, vai caber fácil na sua mente. Isso não acontece comigo, meu prédio já está construído, não cabe mais tanta coisa aqui.” E a partir disso eu começava a compreender então o que era a “formação humana”. 

E então, agora pensando nesse meu aluno de 7 anos, fico refletindo sobre quem são os engenheiros que estão construindo o seu prédio, quais os tipos de materiais que eles estão selecionando para essa construção, quais operários estão envolvidos nessa obra, como foi feito o projeto, qual será a finalidade desse prédio, quanto tempo levará para a sua construção, quanto será gasto... enfim, como formar uma criança? O que temos feito com essas nossas crianças? 

Então, se estamos verdadeiramente preocupados com toda essa barbárie que tem acontecido em nosso país, se queremos exigir idoneidade e transparência daqueles que nos representam, se queremos realmente uma reforma política em nossa sociedade – e fico feliz em perceber que de fato queremos (quero acreditar!) – precisamos nos preocupar mais em transcendermos a aparência dos fatos, precisamos romper com as contradições que nos afastam da Virtude.

Aqui vos diz mais uma das vozes repletas de contradição em suas atitudes, mas penso que compartilhar ideias boas é uma forma de ruptura. Que sejamos, portanto, mais humanos. Que lutemos juntos por objetivos que nos unam e não que nos dividam. Que saibamos, enfim, formar uma sociedade mais justa e menos desigual. 

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