Outro dia, mais precisamente no dia 08 de
março, em uma dessas andanças da vida, sentou-se uma desconhecida ao meu lado
no ônibus. Acho que tenho um ímã para desconhecidos aleatórios, mas ouso dizer
que devo boa parte do que sou a eles, porque de uma forma ou de outra, as
experiências que me proporcionaram puderam me fazer refletir profundamente e
construir minhas próprias percepções sobre o mundo.
Nesse dia eu estava cansada,
lembro-me que eu estava sofrendo da síndrome adolescente de enfiar um fone no
ouvido no último volume para não conversar com ninguém. Mas então se sentou
essa mulher e, naquele momento em que eu pausei a música para escolher outra,
eis que surge a frase no ar:
- Você é casada?
Eu olhei uma vez para o celular,
olhei para ela, olhei para o celular novamente, percebi que era comigo e disse:
- Oi?
E ela repetiu a pergunta, que na
verdade tinha sido bem clara. Naturalmente, eu disse que não. E daí, ela veio
me perguntar algumas questões jurídicas sobre divórcio, que eu confesso: não
soube responder. E então, daquele jeito confuso e frenético, ela falou
repetidamente de uma casa, de uma escritura, de um papel... neste ponto eu já
havia pausado a minha música para ouvi-la com mais atenção. Até hoje minha
intuição me diz que aquela mulher deveria ter algum transtorno. Aliás, quem
neste mundo está imune a isso? Apresentem-me e eu ficaria maravilhada em
conhecer.
Fui percebendo que não havia
lógica nenhuma em nada do que ela estava dizendo. E isso estava me instigando.
Ao longo da conversa, ela começou a dizer: “é tão ruim a gente não poder ficar
do lado de quem a gente gosta”. E então eu comecei a compreender melhor o
raciocínio, resolvi interagir sem subestimar ou menosprezar as ideias
desconexas que ela dizia. Perguntei a ela qual era o problema e ela disse:
“Minhas filhas não gostam de mim, não querem que eu fique com o Fulano, elas
não gostam dele e fazem de tudo para atrapalhar. Elas falam que eu sou velha,
que eu tenho que ter vergonha na cara. Mas eu amo tanto ele...” E eu, neutra
que era na história e percebendo a carência absoluta daquela mulher, senti como
necessidade dizer a ela o que ela queria ouvir naquele momento.
- Ele faz bem à senhora? Se
fizer, penso que a senhora deve ficar com ele!
Ela disse com um suspiro:
- Ele me faz muito bem, ele faz
tudo para mim, ele trabalha, me leva na rua para pagar as contas, ele não bebe
nem fuma.
E após uma pausa, pensou bem e
disse:
- Fumar... ele está parando.
E nesse momento me veio um
sentimento de piedade tão grande, eu me coloquei no lugar daquela mulher e
percebi a miséria humana com a qual ela sobrevivia. Ela estava lutando para
ficar com um homem a quem ela tinha imenso amor apenas porque ele a ajudava,
levando-a para pagar as contas na rua. Certamente, ela já havia vivido todo
tipo de rejeição enquanto mulher, enquanto trabalhadora, enquanto mãe, enquanto
esposa. E ela ia me descrevendo a vida dela, dizendo que as filhas a
maltratavam, que o ex-marido queria tirar o nome dela da escritura da casa,
contando sobre o desequilíbrio social que era a sua vida.
E então a viagem seguiu, cheguei
ao meu destino e continuei com essa mulher no pensamento. Era dia 08 de março,
o dia da mulher. Fiquei pensando em milhões de mulheres que viviam situações
semelhantes ou piores, fiquei pensando em outras histórias de outras mulheres
que vivem à margem da sociedade não porque escolheram ou porque não tiveram
“vergonha na cara”, mas porque foram vítimas de um sistema injusto e perverso.
Mulheres que anularam tudo que existe de humano dentro de si apenas por uma
segurança ilusória: a companhia de um homem. E o pior é pensar que essa
“companhia de um homem” à qual me refiro pode ser traduzida em: “adquirir meios
materiais de sobrevivência”. Porque, mesmo inconscientemente, o significado
deste homem na vida desta mulher é isso: ter uma família, trabalhar, trabalhar,
trabalhar e sobreviver com um mínimo de dignidade.
E aí tudo começa a se perder à
medida que ela passa a enxergar a fraqueza deste homem, que também é vítima do
sistema, que também é explorado em todo o seu caráter humano, que começa como
trabalhador e pode terminar como marginal, como o “desgraçado” que espanca, que
estupra, que rouba, que trafica. E então o fruto daquilo que deveria se chamar
amor – as crianças – passa então a incorporar essa angústia, essa dor
existencial. Essas crianças não têm referência familiar, nunca foram
apresentadas ao sinônimo de amor, dificilmente conseguirão desenvolver prazer
pelo conhecimento, certamente continuarão sendo eternas vítimas das injustiças sociais,
inclusive cometendo novas injustiças sociais.
E toda essa bola de neve pôde ser
percebida em uma simples conversa com uma desconhecida dentro de um ônibus. Mas
dói conseguir perceber e não fazer nada. Dói ver tudo isso e continuar vendo,
sentada, ouvindo a minha música no último volume e preferindo fechar os olhos
para dentro de mim mesma. E então venho aqui e escrevo no facebook. Daí não sei
se reforço ainda mais essa postura "reprodutivista" ou se é possível
plantar sementes. Estou torcendo pelas sementes.
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