quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Leite derramado

Se tem uma coisa que eu tenho preguiça nessa vida é ferver leite. Se fosse por mim, só beberia leite de caixinha, que na minha opinião é muito mais gostoso, mais prático e economiza muito tempo. Mas meu pai sempre insiste em dizer que não quer que as filhas morram de câncer por causa desses alimentos cheios de conservantes. Como sou filha da modernidade, sou um pouco cética em relação a isso e se eu fosse deixar de fazer as coisas para prevenir o câncer, eu não viveria. Entendo, concordo com ele e respeito, mas tenho preguiça de ferver o leite.

E então hoje ele me colocou mais uma vez para ficar vigiando a panela. Já deixei derramar tantas vezes, que dessa vez resolvi intensificar a vigília e fiquei bem atenta e estática lá em frente, de modo que o leite estivesse seguro de sua integridade física. O leite poderia até exigir de mim o máximo de atenção, mas não poderia controlar meus pensamentos. E então fiquei pensando no leite e na vida.

Comecei a relacionar todo o processo necessário para que o leite esteja no nosso copo ao fenômeno da existência: chegamos neste mundo completamente puros. Chegamos com uma força que não imaginávamos ter quando estávamos no ventre de nossa mãe. Essa força se assemelha à consistência firme do leite, às substâncias rígidas que o compõem. E então começamos a ser moldados, começamos a nos dissolver nas relações sociais, assim como o leite, quando começa a receber tratamentos especiais para se tornar mais leve. E aí, à medida que o tempo passa, precisamos passar por um momento de amadurecimento, de preparo. Este seria o momento em que o leite já está na panela.

Então, passamos boa parte da vida nessa “panela”: a princípio, começa o aquecimento (quando começamos a receber e gerar muita energia), as nossas moléculas (nossos pensamentos, idéias) começam a colidir abruptamente entre si, até encontrarmos nosso ponto de ebulição. Alguns, neste momento, se desequilibram e acabam transbordando da panela, afinal são frágeis, faltava algum elemento que garantisse sua estabilidade. Não conseguem desligar o fogo a tempo. Há muita energia. Essa ebulição é tão violenta, tão inesperada, tão avassaladora que não espera o preparo, não espera que estejamos prontos para exercermos nossa função, que é alimentar as pessoas, nutrir o mundo.

Então transbordamos, desperdiçamos parte de nós, parte do que vivemos. Mas nossa matéria é a mesma, ainda restou parte de nós nessa panela. E se formos criativos o suficiente, se acrescentarmos algum outro ingrediente apetitoso, podemos transformar esse pouco que restou em algo mais saboroso que poderia ser quando havia em abundância. Então somos capazes de reconstituir nossa função, conseguimos ainda nutrir a vida. E independente de transbordarmos ou não, todos somos ingeridos pelo mundo e desaparecemos. Mas deixamos vários nutrientes, contribuímos para o crescimento da humanidade. Então, se percebermos que não vamos conseguir apagar o fogo da vida a tempo, não tem problema, não precisamos chorar pelo leite derramado.

E aí, pensando nisso tudo, o leite começou a subir e dessa vez fui mais esperta que ele e desliguei o fogo na hora certa.

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