segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A linguagem tecnológica e suas reticências.

Hoje mais cedo, minha avó estava aqui em casa e minha mãe foi contar a ela as novidades que sempre recebe sobre os parentes por meio das redes sociais:

- Olha mãe, a festança do pessoal lá, que beleza!

E ela, curiosa como costuma ser, se aproximou para ver, dizendo:
- Ah é? Eles postaram???

Na hora eu ri, elas não entenderam. Daí eu disse:
- Uai, vó, o que significa o verbo “postar”?

E ela:
- Ah, sei lá, colocar no “tizap”. 

Eu e minha mãe ficamos rindo.

E eu, pensando:

Como a nossa linguagem é incrível! A história da humanidade acontece e tudo se adapta às nossas exigências, às novas necessidades que surgem. E a nossa linguagem se transforma constantemente, sem percebermos. E então me deparo com a minha avó utilizando uma expressão que há menos de 5 anos era completamente restrita a um determinado grupo. E quando eu me incluía nesse grupo restrito que dominava parte de alguns conhecimentos relacionados à tecnologia, jamais pensava que um dia meus pais ou minha avó entenderiam o significado dessas palavras. Então, fico pensando que a linguagem tecnológica já se tornou universal. 

E é tão difícil incluir todas as outras formas de linguagem nessa nova linguagem! O conhecimento não chega a todos da mesma forma. O pensamento evolui, a ciência e a tecnologia evoluem, os meios de comunicação evoluem em progressão geométrica (a progressão matemática maior que estudei na época da escola era essa, não sei se desenvolveram outra). E nós nos transformamos. Mas, como somos humanos, nosso tempo é diferente, nosso tempo é o nosso corpo, são as nossas relações com outras pessoas, são as nossas experiências, nossas emoções e sentimentos. Não somos máquina e, portanto, não dá para “evoluirmos” tanto quanto as tecnologias. 

E é exatamente pensar sobre isso que me faz refletir sobre o paradoxo que existe entre a humanidade e as tecnologias: elas evoluem e nós, por sermos humanos, regredimos enquanto humanos. Por que isso acontece? Porque elas nos dominam. Não temos força para lidarmos com nossas próprias criações. Não temos estrutura filosófica para lidarmos com a velocidade avassaladora das tecnologias. Somos frágeis diante delas. E nisso, todas as nossas outras formas de linguagem se desconectam, se perdem diante dessa linguagem maior que criamos. Então não sabemos mais nos expressar enquanto sujeitos pensantes, não conhecemos mais nossas possibilidades corporais, não conseguimos mais tocar no outro, não conseguimos mais pisar no chão como antes: sentir o cheirinho e a textura da terra molhada e inventar aquelas brincadeiras antigas que nos faziam tão (ou muito mais) humanos. 

Falando assim, pareço ter nascido antes que minha avó. Mas eu amo a tecnologia, não consigo viver sem ela. Por outro lado, quando paro para pensar nessas coisas, eu realmente fico muito tocada. Alguém me ajude a desvendar esse beco que, para mim, parece estar sem saída. 



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