domingo, 26 de janeiro de 2014

A desconstrução do conhecimento

Este final de semana estive a maior parte do meu tempo na pós-graduação. E enquanto eu entrava em contato com toda aquela gama de novos saberes, eu também refletia bastante sobre a dimensão que qualquer tipo de conhecimento traz na vida de um ser humano. Cheguei em casa, fiquei algumas horas curtindo o ócio de domingo, descansando um pouco meus neurônios, depois comecei a ouvir música e resolvi acessar o fundo do meu baú: Legião Urbana. E então as músicas fizeram com que as minhas reflexões se intensificassem ainda mais, como sempre fazem.

Cheguei então a diversas conclusões. A cada novo dia, somos pessoas diferentes. Todas as experiências que adquirimos nos tornam diferentes daquilo que éramos há segundos atrás. A impressão que eu tenho é que cada vez que conheço novas teorias, vertentes, concepções, ideias, pessoas, estilos de vida, lugares e sensações, mais confusa e menos preparada para viver eu me sinto. O conhecimento evolui, mas desconstrói a visão que temos do mundo. E viver em constante desconstrução, nos desequilibra.

Estou me especializando em Fisiologia do Exercício. Até aí, nenhum problema, já que me formei em Educação Física. Eu amo compreender de forma mais específica as funções do corpo, fico impressionada com a capacidade que o exercício físico tem de transformar até mesmo as partículas menores e aparentemente insignificantes presentes em nosso corpo. Fico instigada a querer saber mais e mais. No entanto, também me sinto o tempo todo incitada a compreender as relações humanas, a forma como a sociedade se organiza, as particularidades que envolvem política e economia, por exemplo. Também tenho vontade de aprender sobre tecnologia, sobre mídias, gostaria de dominar a fotografia, tenho vontade de saber tudo sobre arte e música. Também fico curiosa com as diversas línguas, gostaria muito de ter segurança e domínio em relação ao inglês e ao francês. E acima de todas essas outras áreas, eu gostaria de entender profundamente a filosofia para que eu pudesse conhecer a mim mesma e, assim sendo, que eu conseguisse trazer reflexos de todo esse conhecimento para a vida das pessoas ao meu redor, espalhando bons pensamentos e estimulando atitudes que visam o bem.

E eu, com tantas vontades e tantas expectativas diante da vida, acabo me sentindo estagnada diante de tantos quereres e quase nenhum “agir”. Minha mãe sempre me diz que eu tenho que parar de refletir tanto e passar a agir mais. Concordo, em partes. O que eu não concordo é com a forma como a sociedade contemporânea tem lidado com todo o conhecimento que tem sido produzido. Não concordo com essa concepção hegemônica de classe média de que todos devem estudar, se graduar, se especializar, tornar-se um ótimo profissional por meio do conhecimento para que, sendo detentor desse poder, ele possa explorar aqueles que não o têm. Procure um “bom profissional” e pague com prazer 300 reais por 30 minutos de conversa (consulta).  É o valor agregado ao conhecimento que ele tem. É justo. Nada mais que justo.

É justo??? Então esse poder vindo da mente deste “profissional” está acessível apenas a quem tem o outro poder, mais conhecido como dinheiro. E quem não tem dinheiro, simplesmente está fora. É margem, é resto, é insignificante. Felizmente não é sempre assim, ainda existem detentores do conhecimento que o utilizam a favor do coletivo, a favor do todo. A minha preocupação é que essa ideologia de classe média esteja se impregnando com muito mais força nas mentes desses novos jovens que buscam uma universidade. Converso com uma moça ou rapaz de 18 anos, tudo o que eles querem é se formar em uma área de maior status e que lhe garanta melhores condições financeiras para que futuramente possa participar ainda mais desse mundinho de classe média que está fechado em si mesmo e que a cada dia se prende mais a valores deturpados pelo dinheiro. E, diga-se de passagem, é difícil conviver sempre nesse meio social e não se olhar no espelho e se perguntar: será que eu me tornei assim?


E então, voltei de ônibus para casa e fiquei observando os passageiros. Todos concentrados em sua própria existência, sabe-se lá o que se passa na vida de cada um deles. Fiquei pensando na probabilidade que eles teriam de ter acesso ao tipo de conhecimento que eu acabara de adquirir ao longo desta tarde. Acho que seria pequena. E eles continuam lá, contemplando aquilo que lhes cabe. E quanta coisa ignoram, quanto conhecimento desprezam o tempo todo. E eu, na minha mediocridade? Quanta coisa ignoro e o quanto me equivoco o tempo todo? Como me sentir totalmente dona de mim mesma? Como ser verdadeiramente eu mesma? Afinal, se eu sou a construção e a desconstrução constante de mim mesma por meio de tudo o que eu vejo, leio, ouço, faço, por meio de tudo que aprendo, então quem eu sou?

Um comentário:

  1. Ótimo texto.
    Vou meditar a respeito dessas idéias tão logo retorne à minha toca.

    ResponderExcluir